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Mudanças

Ares 1

Esse Blog tem seu primeiro post no dia 01 de agosto de 2016. Era um post sobre Moneyslave. De lá pra cá eu comecei publicando dia sim dia não, as vezes um por dia, era bem intensa a ideia de produzir conteúdo sobre uma coisa que eu amava.

BDSM pra mim era um estilo de vida que fazia muito sentido e eu queria levar isso ao máximo possível de pessoas. Era um propósito que fez sentido pra mim depois de muito tempo.

Não sei se você conhece a minha história, mas eu vou resumir pra você.

Eu era o garoto feio da turma. Aquele que não conversava muito, não tinha contatos e andava sempre com as mesmas 2 ou 3 pessoas. Que era introvertido, tímido, não sabia conversar e pior gostava das pessoas e achava que ficando perto das pessoas que eu gosto por tempo suficiente, elas me notariam e me valorizariam. Eu me doava muito e tinha muito pouco em troca. Era constantemente excluído de vários convites e experiências amorosas eram coisas de outro mundo, que o mais próximo se apresentava em comédias românticas adolescentes, e só.

Eu dei o meu primeiro beijo na boca com 17 anos. Foi numa festa de 15 anos, eu conheci uma menina, dançamos, eu sem jeito, desengonçado, ela com seus cabelos enroladinhos e toda cheia de graça. Em um momento eu tomei coragem e pedi um beijo. Ela me disse “ok, mas tem que ser rápido pois meu amigo está chegando”. Eu concordei sem necessariamente entender o que esse “meu amigo está chegando” queria dizer. Quando o amigo dela chegou, ela praticamente sumiu da festa.

Era o namorado dela.

Inclusive o beijo foi usando essa mesma camisa.

Ok, pro primeiro beijo na boca que muita gente acredita ser algo mágico, exótico, incrível, espetacular, épico. O meu foi corrido e escondido.

Bom, mas vida que segue.

Com 18 anos, já cursando engenharia mecânica na PUC. Era bolsista integral. Tinha uns poucos melhores amigos e um estava sofrendo, tinha terminado com a namorada, o término não foi nada saudável havendo discussões, brigas, farpas e outras coisas péssimas que quem já terminou de forma não-saudável pode imaginar. A mãe dele me convidou pra fazer uma viagem com eles e a família deles. Eu fui.

Era réveillon. Estávamos indo pra uma praia no Espirito Santo. Durante a viagem eu conheci a prima desse melhor amigo. No dia do réveillon, eu e ela, ficamos até muito tarde na beira da praia. Todo mundo tinha ido embora e ficamos nós dois. Conversamos, conversamos, conversamos. Em um momento o assunto parou, ela estava emocionada com aquele momento, pra mim, ela devia ter tido um ano difícil e eu não falei nada, só fiquei ali olhando o mar e de alguma forma dando um apoio, mesmo que em silencio.

Indo de volta pra casa que estávamos todos eu tentei ficar com ela, conversei, usei lógica, usei meus dotes sedutores, mas nada aconteceu. No final eu falei “então me fala seu número de telefone e a gente conversa direito depois da viagem, o que acha?”. Eu não sei bem o que ela sentiu, mas eu não tinha como anotar, meu celular havia acabado a bateria, não tinha papel e pra mim ela achou que eu nunca ligaria pra ela.

Eu decorei o número e entrei em contato. Ela surpresa não acreditou e achou que eu tinha pego o número com o primo dela, mas eu havia decorado. Acho que isso abriu algumas portas, da ideia de “realmente querer conversar com ela”, de “fazer questão”, sabe?

Enfim, eu era virgem. Ela não. Não sei como isso era pra você que me lê, mas pra mim e da forma como eu fui criado, era um demérito.

“Como assim 19 anos e nunca transou?”

Eu tinha muita base teórica, MUITA, afinal eu via muita pornografia e me masturbava bastante.

De alguma forma eu convenci ela de que não era virgem, e a coisa meio que aconteceu em algum momento.

Mas foi muito esquisito. A segunda, terceira, quarta e por aí vai, foram sempre melhorando a ponto de pra mim, ser incrível.

Só que como todo conto de fadas, tinha também a parte ruim, complicada, complexa.

Quando ela estava emocionada na beirada da praia, não era pelo ano difícil, era pelo ex. Ele foi pro exterior, e ia voltar. O relacionamento deles era sólido. Basicamente eles namoraram por muito tempo, deram um “tempo” quando ele foi pro exterior e tinham prometido conversar quando ele voltasse.

Assim como no meu primeiro beijo, que foi uma coisa importante pra mim, eu tinha entrado mais uma vez em uma situação com alguém que não tinha as coisas bem resolvidas.

Eu descobri sobre o ex, quando ele estava na iminência de voltar. Nessa época eu descobri BDSM.

Eu amava ela, mas tinha o ex. O sexo era incrível mas eu queria explorar BDSM. Eu queria fazer o meu melhor pra gente ficar junto mas também queria liberdade. Eu amava ela, mas ela tinha sido a primeira e a única até agora. Era gostoso o que tínhamos mas era mantido em segredo pra família dela. Tinha muita coisa boa, mas tinha muito “porém”, muita condição e muita “limitação”.

Depois de muitos “términos”, muitas coisas ruins, muitos problemas. Nós nos separamos. Eu fui pro meu recente descoberto mundo novo chamado BDSM, e ela foi pro caminho que quis.

Hoje pensando sobre esse relacionamento eu acredito que eu fiz o melhor que eu pude, e ela fez o melhor que ela pode. Não guardo mágoas, nem arrependimentos, mas eu teria sim agido diferente em muitas situações.

Em algum tempo depois, eu comecei a trabalhar em uma empresa chamada CNH, que fabricava máquinas de construção, tratores e esses equipamentos grandes e fodas. Na parte de garantia, análise de falhas e negociação com concessionárias. Estudava engenharia mecânica, a empresa era do grupo Fiat, era minha 7ª empresa, eu já tinha passado por muita coisa muito pior, a CNH me deixava confortável.

Era confortável até não ser mais. Isso foi relativamente rápido. Eu tinha um chefe horrível, péssimo, horroroso chamado Adilson. Na empresa falava-se que o apelido dele era “freio de mão puxado”. Todos os dias eu chegava pra trabalhar dava um bom dia ele me respondia com um grunhido tipo um zumbi “bu-e-ia”. Ele se cagava de medo do diretor. O diretor fumava dentro da sala com ar condicionado. Eu saia constantemente da minha mesa pra dar uma volta pelo espaço da empresa sempre que ele acendia um cigarro. Aí quando eu voltava meu chefe me perguntava onde eu tinha ido e eu falava: “fui dar uma volta, cigarro me faz mal”. Ele não gostava mais aceitava.

Em algum momento eu desenvolvi uma rinite, quadros de sinusite e alguns outros vários problemas de saúde por fumar passivamente. Então eu faltava, ia a médico, fazia almoços mais longos. Eu pressionei o Adilson, pressionei o RH da empresa, mas eu não tinha força, era um diretor norte americano com 40 anos de empresa. Então eu envolvi um poder maior do que o diretor e do que a empresa, eu envolvi a vigilância sanitária, e tenho certeza que eles entraram em contato com a empresa pra agendar uma fiscalização por denúncia anônima.

Tinha um colega meu, que também estava sob a “liderança” do Adilson, que era filho de milionário. Na época nosso salário era em torno de 3 mil reais, 22 anos, era um dinheiro bom, mas enquanto eu andava de Palio, um Palio zero KM, lindo, preto, quatro portas, ele andava de Mercedes que ele pagou uma “pechincha” de 112 mil. Só de despesas com a Mercedes eu acreditava que ele gastava mais do que o salário dele. Eu nunca tive inveja dele, mas queria saber o que ele fazia pra conseguir manter isso.

Oh meu BB.

Em algum momento, eu comecei a acompanhar esse colega e nos tornamos amigos.

Fui pra casa da família dele na represa de Furnas. Passamos uns dias lá, o grupinho de amigos, as namoradas. Passeamos de iate algumas vezes, jet-ski, picanha, bebidas caras, festas nos clubes, almoços em restaurantes chiques em que você atracava o seu iate no píer pra almoçar. Fizemos uma viagem pra São Paulo, pra passear, Hopi Hari e outras coisas interessantes. Ele foi pra Dubai, Austrália, me mostrou foto, trouxe lembrança, contou histórias. Era muito interessante.

Só que pra sustentar esse estilo de vida, 3 mil não era suficiente. Ele começou a fazer o que chamava de “catira”, quando o pai não dava dinheiro, ele comprava e vendia algumas peças automotivas. Rodas, centrais multimídia, faróis e outras coisas. Tudo legal com nota e tudo mais, só que no horário de trabalho. Ou seja, ele estava sendo pago pra desempenhar uma função e estava gastando esse tempo pra fazer outras coisas.

E eu entrei na dele. Comecei a usar o tempo que deveria estar trabalhando pra pesquisar, ler, aprender, estudar, tanto BDSM, quanto empreendedorismo, psicologia, administração, eu aprendia muito e lia tudo o que podia.

O Adilson nunca reclamou. Eu tinha o caso do cigarro que ele foi passivo, então ele não tinha moral, eu tinha superado todas as metas do funcionário que estava lá antes de mim. O departamento comercial e os concessionários me adoravam e eu conseguia fazer todo o meu trabalho e ainda permanecer boa parte do meu tempo fora do escritório ou fazendo qualquer outra coisa que não trabalhar.

Mas eu me sentia um impostor.

Eu não queria aquela vida de amigo de milionário. Ir almoçar de carona na Mercedes era legal, ela tinha ar condicionado, mas eu não sentia muita diferença de um Línea, que era o carro top da fiat e que vários colegas tinham, da Mercedes que custava o dobro. Além de que pra ir almoçar a gente ia 5 homens em um carro, podia ser o carro que fosse, era apertado.

Eu constantemente ficava me perguntando se era a vida que eu queria. Trabalhar anos em uma empresa sem criar nada, eu trabalhava só com as falhas dos produtos, que eram as mesmas há anos, e que a empresa escolhia não corrigir. Um produto “mais perfeito” é mais caro e o mercado aceita alguns defeitos em prol de produtos mais baratos. Estatisticamente pode falhar 5%, se falhar e quando falhar a gente corrige. Eu desenvolvi um método que me permitia trabalhar 1 hora por dia. Tudo que era falha repetida mais de X vezes e estava dentro de uma média de valor pagava, o que era novo eu analisava.

Mas sei lá, estava errado. Eu tinha uma habilidade ótima com Excel, as planilhas me ajudavam muito e economizavam muito esforço. Eu era inteligente e criativo. Eu tinha muito conhecimento sobre muita coisa. Eu sabia onde encontrar informação que ninguém mais tinha. Eu precisava de mais.

E entenda:

Eu não queria uma Mercedes. Seria legal se tivesse? Sim, mas eu não iria gastar energia pra isso.

Eu não queria subir na empresa pra ganhar 12 mil como meu chefe. “Eu, ser igual a ele? Celular da empresa, 24h por dia à disposição, a maior parte do tempo longe da família, todo mundo falando mal? Quero não.”

Nem o Paliozinho que eu tinha, que me deu muita satisfação pra tirar ele zero km da concessionária eu queria.

Inclusive você sabia que carro zero km não é zero km? Ele vêm de fábrica com 2 ou 3 km rodados, que eles usam pra movimentar o carro da cegonha, na concessionaria e pra algumas coisas.

Em algum momento eu me desencantei com o dinheiro e com bens materiais. Pra mim era só um número que eu precisava pra viver, e os bens materiais eram principalmente um acumulo de coisas que eu nem tinha certeza se eu queria, mas eu comprava pra impressionar pessoas que eu nem gostava.

O ambiente corporativo, principalmente o de áreas industriais é tóxico. Tem muita gente muito boa, muito foda, muito inteligente e muito criativa, inclusive guardo grandes ensinamentos de mentores que eu tive que nem sabiam que eram meus mentores, mas que constantemente eu perguntava coisas profundas e interessantes e que rendiam conversas ótimas além de um aprendizado muito grande por minha parte. Só que tem muito machismo, tem muito viver de aparência, tem o chefe que não sabe lidar com dinheiro e tem inveja do funcionário que sabe lidar com dinheiro e compra uma casa. Tem o funcionário que não respeita o chefe (eu aqui). Tem o funcionário que quer derrubar o chefe e por aí vai.

A Felicidade em Pessoa

Eu queria algo mais satisfatório e realizador. Eu queria pessoas melhores e eu queria me desenvolver.

Nessa época eu comecei a fabricar acessórios pra BDSM em paralelo ao meu emprego.

Na minha cabeça ia funcionar. O meio BDSM no Brasil reclamava de acessórios de qualidade, todo mundo queria algo mais fino e ninguém achava. No exterior era caro e taxas de importação eram absurdas. Eu sou inteligente, tenho uma bagagem de várias empresas e consigo.

Eu dediquei a isso, fiz algumas pesquisas, comecei a fazer acessórios, inventei coisas de fibra de vidro, acessórios que mexiam com o psicológico das pessoas e fiz de tudo um pouco. Foi bom por um tempo, até eu descobrir que: O brasil não tinha acessórios finos de BDSM pois ninguém queria pagar o preço que valia.

Imagine que você vai fazer uma roupa de látex. Só de material você paga 200 reais, se der sorte de não ser taxado, gasta 4 a 6 horas pra fazer, e vende 2 por mês. Fora o tempo até masterizar e ficar bom nisso. Quanto cobraria?

Independente do preço que você cobraria, a maioria das pessoas queria pagar no máximo, estourando, 300 reais, isso se não perguntassem: “mas quanto você gastou de material?”.

Eu não queria isso pra minha vida. Então sosseguei meu lado empreendedor por um tempo, continuei pesquisando e aprendendo.

Nessa época, eu me voltei mais pra realizar os meus fetiches. Fui atrás do que mais me mexia, mais me provocava que era: ter várias submissas.

Eu queria botar as aranhas pra brigar. Eu queria ter controle sobre as pessoas pra guiar uma sessão como um maestro e ver as coisas acontecerem. Eu queria ter um impacto positivo na vida das pessoas que tivessem a sorte de estar comigo.

Foi sensacional. Até não ser mais.

(Hoje eu percebo que se está tudo indo bem, você tem que continuar se esforçando pra que as coisas continuem indo bem e melhorem, não dá pra relaxar por muito tempo, se entra no automático fatalmente vai ficar ruim e acabar.)

Uma das subs que eu tinha, tinha uma dificuldade enorme de gozar. Ela simplesmente não gozava com penetração e isso pesava muito pra ela. Por causa dela eu descobri que isso é mais comum do que parece e uma porcentagem alta de mulheres não consegue orgasmo com penetração.

Um dia ela apareceu com uma ideia diferente: “Vamos fazer um curso de massagem tântrica?”.

Eu pedi mais informações, o que, como, onde, quando, quanto. Ela me falou o preço, era algo como 1400 ou 1500 o casal. Eu disse que achava muito interessante, mas não pagaria.

Ela pagou pra mim e pra ela.

Eu fui sem expectativas, fui por ela. As outras duas subs deram um jeito e foram também.

No primeiro dia, eu tive uma experiência péssima. PÉSSIMA. Horrorosa, horrível, de não querer voltar no dia seguinte e com essa sub que me convidou.

No segundo dia, trocamos de parceiros e eu tive uma experiência ótima que mudou minha vida.

Depois eu entendi que o primeiro dia normalmente era ruim mesmo, e que no segundo a coisa melhorava. Inclusive eu acabei sendo um pouco injusto com essa sub por isso, mas acho que resolvemos depois.

Bom, a vida seguiu. O relacionamento com elas não deu certo, e uma a uma as relações foram terminando. O meu emprego me matava um pouco a cada dia.

Eu me sentia destruído.

Você pode pensar: “Como assim destruído? Ter várias mulheres é o sonho de qualquer homem, o seu emprego pagava bem, você estava se formando em engenharia, a vida estava garantida.”

Então.

Uma pessoa, não digo nem mulher ou homem, mas uma pessoa na sua vida te traz coisas boas mas te traz um número de problemas. Duas pessoas na sua vida te trazem problemas ao quadrado. Três pessoas trazem problemas ao cubo.

1 pessoa = 1 problema

2 pessoas = 4 problemas

3 pessoas = 9 problemas.

Entende?

Depois de ter saído dessas relações, eu comecei a fazer terapia. Lidei com algumas questões familiares. Meus pais, por mais que tenham se esforçado, não me deram nem 10% do apoio e do suporte que eu precisava pra lidar com essa quantidade de coisas. A terapia me ajudou, mas não resolveu.

Nessa época, BH começou a ter alguns eventos fetichistas de um projeto chamado Projeto Luxuria, que se não me engano, acontece até hoje no Rio e em SP. Eu comecei a ir.

Fui em um. Conheci algumas pessoas boas, outras bem babacas.

Fui em outro, conheci mais algumas pessoas boas, conheci mais pessoas babacas.

Aí haviam uns encontros que eram feitos durante a semana. Eram feitos as quartas feiras, em um bar chamado Stonehenge. Um bar de Rock que abria pra receber esses eventos. O maior deu 50 pessoas.

Em algum momento eu percebi que por eu ir com frequência e pela bagagem que eu tinha, que podia conversar com as pessoas que estavam chegando e que isso ajudava muito.

Pra mim, receber um novato e dar informação principalmente sobre consensualidade, ajudava essa pessoa novata a não ter tantos problemas.

Isso se tornou um hábito.

Eu passava muito tempo na internet, eu conhecia as pessoas no fetlife, no facebook e convidava para as festas. Era mais confortável para as pessoas um convite pra uma festa, do que um convite pra um encontro. Até porque, a maioria das pessoas não se mostravam, era um monte de fake que se escondia, então se eu convidasse uma pessoa pra uma festa e não gostasse dela pelo mau hálito por exemplo, ou pelo físico não me atrair, era uma festa, não era um encontro.

Corria o risco de convidar uma pessoa pra uma festa e lá ela conhecer alguém mais bonito ou interessante? Sim, mas era melhor do que lidar com um encontro ruim.

Bom, algumas festas depois, alguns encontros depois.

Eu percebi que eu estava levando mais pessoas que quem organizava o evento, eu estava recebendo as pessoas, dando informação, fazia algumas cenas e explicava, conhecia todo mundo, muita gente ia por minha causa, porque eu convidei, eu basicamente fazia o trabalho de quem organizava e ainda estava pagando por isso.

Eu pagava a entrada, pagava a bebida, pagava a comida, levava os meus acessórios e a gasolina.

Eu não ligava de pagar, eu gostava do movimento. Só que, os eventos começaram a demorar muito pra acontecer, a organização do evento não recebia os novatos, não dava informação e eu percebi que muita gente nem sabia quem estava organizando o evento.

Tinha uma série de defeitos que se eu fizesse seriam corrigidos. Da forma como era feito, eu sentia que não era difícil e dava pra fazer melhor.

Reclamando com uma sub, falando do quanto estava mal feito, ela me falou: “Então porque você não faz?”

Não sei se ela falou em tom de provocação, pois era Brat e ficava provocando uns castigos, ou se ela falou sério pra eu fazer. Eu escolhi o caminho do meio. Dei um spanking gostoso e pensei em como fazer a festa.

Todo mundo saiu ganhando. Hahahahaa

Na primeira festa que fiz “sozinho”, foi de halloween. Foi bem interessante. Eu podia fazer o que quisesse, a festa era minha.

E eu fiz.

Decoração temática daquelas que se compra em casa de festa. Fantasia. Fiz uma camisa com estampa de esqueleto. Olhando pra trás algumas coisas ficaram um pouco toscas, mas foi a primeira e eu não tinha parâmetro, mesmo assim eu fiquei muito satisfeito. E deu um público de 53 pessoas.

Tudo o que eu fazia nas festas das outras pessoas e me divertia, eu fiz na minha e me diverti e ainda recebi por isso.

Já pensei em como eu podia sair do meu emprego e viver de festas BDSM. Eu ainda estava lá, morrendo um dia por vez.

Com as festas eu percebi que há um limite. Eu fiz festas com números entre 25 e 95 pessoas. As com menos pessoas eram as que eu mais gostei. Quanto menos pessoas, melhor você escolhe, só que menos você ganha.

Festas não eram uma opção pra me manter, mas eu me divirto então faço.

A vida continuou e algo aconteceu.

Meu chefe zumbi, foi envolvido num projeto e junto com ele os subordinados a ele, eu era insubordinado mas pra empresa eu era subordinado, então me envolveram.

O projeto era trocar o antigo sistema de garantia pelo S.A.P. que era um sistema novo, com mais funcionalidades e mais controle de gestão.

Aí lá fomos nós.

O projeto foi tocado na fábrica de Curitiba. Eu fui pra Curitiba, era junho, eu fui obrigado, eu não queria ir, e eu não sentia que seria proveitoso. O dia de trabalho começava as 8 da manhã, o meu chefe buscava a outra pessoa, e me buscava, ficamos cada um em um hotel diferente.

Inclusive o gringo italiano uma vez perguntou: “Vocês estão cada um em um hotel? Por que?”

Na minha cabeça ele continuava “Vocês são idiotas? Isso é um erro logístico e de gestão enorme.” Meu chefe dava um sorriso amarelo, e eu por dentro ficava feliz, pois era mesmo um erro enorme logístico e de gestão que fazia ele parece um completo incompetente. E eu causei isso, eu não queria ir.

O dia começava as 8 e ia até as 20h, saindo pra jantar ia até as 21h, ou 22h.

Restaurantes chiques, pratos de 120 a 150 reais, vinhos caros. Todo mundo de terno, era uma pompa exagerada.

Seria até gostoso experimentar tudo isso, em BH eu até conhecia alguns lugares assim, mas em Curitiba não, só que eu estava nas companhias erradas.

Eles saiam pra jantar todos os dias pra um lugar diferente, e os gringos e meu chefe ainda iam pra puteiros tudo custeado pela empresa.

Eu nunca fui. Nunca me senti atraído.

Transar com mulheres diferentes eu fazia em BH, tocar putarias loucas eu fazia em BH, tudo o que eles achavam que era “viver a vida” longe de seus lares, suas esposas e seus filhos, eu fazia em BH sem trair ninguém, com meu dinheiro. Mas eu não podia falar isso pra eles, só falava que não gostava muito e deixava. Eu não queria chamar atenção, só queria sair de Curitiba.

Num dia eu dei um perdido neles. Jantar chique de novo? Puteiro de novo? Falar sobre o tempo? “Nossa, a umidade relativa do ar em BH está abaixo de 10%”, “O time X fez tal coisa e está indo mal”, “Pra que time você torce?” “Eu não ligo pra futebol” “ah ta”.

“the hotter in my room is brake”. Essa frase proferida pelo meu célebre chefe zumbi queria dizer que o aquecedor do quarto dele quebrou. “Mim fala inglês”.

Ah, ele não sabia nem que eu falava inglês e espanhol. Ficou assustado quando em algum momento eu fui explicar alguma coisa numa proficiência melhor que a dele.

Nesse dia que dei um perdido, eu fui num forró. Mano, que delícia! Foi sensacional, eu vi um monte de gente diferente, conversei e bebi, ninguém me conhecia, e eu não precisava manter a pose de funcionário, nem ficar escutando besteiras supérfluas sobre assuntos aleatórios pois as pessoas não suportavam o silêncio.

Foram 15 dias nessa rotina estressante de 8h as 21h com pessoas que eu não admirava muito menos gostava.

Num desses dias eu perdi a hora. Acordei 9:30. Nisso o zumbi já tinha ido ao hotel, ligado no meu celular que descarregou, xingado, falado mal de mim pra fabrica toda, falado da minha falta de comprometimento. Eu cheguei à fabrica as 10:30. Foi sensacional, estava precisando dormir.

Falaram “o Adilson esta puto com você”. Nem liguei, ele me evitou o dia todo, foi ótimo.

Voltamos. Pra mim Curitiba era uma merda, as pessoas péssimas e uma cidade horrorosa.

Na semana seguinte eu desabafei com algumas pessoas da fábrica.

“Ele é um burro. Não dá aumento, põe a culpa no RH, fala que não depende dele. O RH rebate na frente dele falando que depende dele sim. Ele resmunga e não resolve. Gasta um dinheiro absurdo em Curitiba, pra um projeto que não precisava estar lá fisicamente, e ainda passa vergonha diversas vezes sozinho. Acho que ele mostrou o quão incompetente é.”

A fofoca correu e aí ele começou a falar mal de mim também na fábrica de BH. Me confrontar, eu, funcionário dele, nunca, mas falar mal de mim, sim.

Estava claro pra mim que eu não tinha que estar ali.

Isso se tornou inevitável, ou eu ou ele, pois a cada dia que eu ia trabalhar acredito que ele sentia uma pontada de desgosto, uma ferida no ego que lembrava ele da sua própria incompetência. Como pra empresa eu era só um número, as coisas aconteceram e eu fui demitido.

No dia da demissão, eu fui pego de surpresa. “Aquela figura patética zumbi, que por anos se arrastou pelo escritório finalmente tomou coragem e fez algo”. Mas OK.

Na reunião de demissão, eu, ele e a pessoa do RH. Eles falaram “não é o fim do mundo, você é bem querido nas concessionárias, eu vou te dar recomendação, etc. etc. etc.”. Na minha cabeça eu pensava: “como que eu vou fazer 5 mil reais por mês daqui pra frente”.

Quando perguntaram se eu tinha algo pra falar, por um momento eu pensei em apontar todas as falhas dele, desmascara-lo em frente a pessoa do RH, mostrar pra ele o quão burro e ignorante ele era, o quanto ele era passivo e quanto ele precisaria melhorar pra ser considerado um profissional em qualquer área. Eu guardei isso pra mim e disse somente: “Se você quer ser um bom líder, você tem que saber dizer para as pessoas o que você espera delas”.

Cheguei em casa e dormi.

Pensei bastante em muita coisa e cheguei a uma conclusão.

Eu estava livre.

Podia fazer o que quisesse, pois agora eu tinha tempo.

Vendi o carro, vendi a moto, zerei minhas despesas supérfluas e eu vi que tudo o que eu precisava pra viver bem em um mês ficava em torno de 1 mil reais.

Eu tinha carro, eu comprava roupas, eu fazia viagens, tudo porque o meio que eu estava pedia isso, se eu não estava naquele meio, eu não precisava sustentar essas aparências. Liberdade.

Continuava com as festas e elas cobriam todas as minhas despesas, minha vida era simples.

Mas eu caí na besteira, de me voltar pro tantra. Tinha feito alguns cursos de massagem tântrica, e isso tinha mexido comigo. Só que nessas eu percebi o seguinte: “Eu não tenho energia pra fazer por exemplo 2 massagens, ou pra transar 2 horas”.

Algumas das massagens que mexiam na minha energia me traziam lembranças, me traziam emoções e coisas que eu não entendia.

Se te incomoda você se afasta ou você se joga. Eu me joguei.

Fui aprender com o meu professor Gilson Nakamura. Já tinha sido uma mudança gigante na minha vida nas massagens e foi algo que eu não pedi, mas aconteceu. Agora era algo que eu precisava e queria.

Voltei pra um outro professor Donatien Alphonse François de Sade, bem como Leopold von Sacher-Masoch, e alguns outros, que não podiam me recusar pois estavam mortos.

Tem uma coisa que com algum nível de compreensão a gente aprende: “Tudo está ligado”. Uma célula, se liga a outra, que se liga a outra e dá origem a uma vida. Uma pessoa que se liga a outra, que se liga a outra e dá origem a uma cidade. Uma palavra que se liga a outra, que se liga a outra e dá origem a um texto. Um conhecimento que se liga a outro, que se liga a outro e dá origem a uma mudança.

Eu acredito muito que ideias inovadoras são a junção de ideias comuns.

Pra mim que já tinha uma bagagem de BDSM e de massagem tântrica, juntar com o conhecimento do tantra foi algo incrível.

Eu vi que muita gente já tentou misturar BDSM e tantra, mas falharam miseravelmente.

Tantra é corpo, BDSM é uma parte da mente.

Metade BDSM, metade tantra, vai dar errado.

75% BDSM e 25% tantra dá errado.

25% BDSM e 75% tantra dá errado.

Até porque tem mais coisa envolvida. Eu falhei muito até achar o ponto.

Eu diria que 10% BDSM e 25% tantra seria, num chute quantitativo, o ideal.

Mas e os outros 65%? Simplesmente não sinto que as pessoas estão preparadas pra eles ainda, então está indo a conta gotas.

Depois de 1 ano de “férias”. Afinal eu ganhava 5 mil de salário, minhas contas ficavam em torno e 1 mil, fiquei um bom tempo sem ter que me preocupar com dinheiro e de férias, lendo, dormindo, pesquisando e aprendendo.

Eu lancei um curso de BDSM em 11 de abril de 2019. Online e era chamado de BDSM Sem Mistério.

Me lembrei de quem eu era, e de quem eu queria ser quando comecei com BDSM. Do que eu queria aprender e pus tudo no curso. Tudo que eu descobri sozinho eu juntei e coloquei lá. Eu queria verdadeiramente ajudar as pessoas com o que eu passei.

Vendi 2. Um pra um amigo e outro pra minha namorada/domme com quem eu estava.

Pra mim a vida estava completa. Eu nem precisava vender mais, nem preciso, afinal minha despesa continuava baixa e eu tinha dinheiro guardado.

Com esse “ápice”, de ter feito tudo o que eu queria e até mudado a vida de 2 pessoas, pra mim a vida estava perfeita, concluída. Inclusive, num dos cursos do meu professor de tantra, eu tive uma “experiência de morte”, resumidamente, você medita como se você estivesse se despedindo da sua vida, é meio louco mas é isso.

Aí durante a meditação eu tive certeza que já tinha feito de tudo. Já sofri por amor, já tive diversas aventuras, já vivi vida de rico, já vivi vida de pobre, já vivi vida de monge com custo zero, já realizei fetiches com várias mulheres, já fiz coisas incríveis, já tive carro zero, já tive diversas festas muito doidas, já toquei inúmeras putarias, já tive roupas de látex, já vesti, já fiz usarem, já brinquei de médico, já fiz massagem tântrica, já recebi, viajei pra vários lugares do brasil, minas gerais eu conheço uma parte boa, etc. Pra mim, se eu realmente morresse ali, estaria tudo bem. Inclusive se eu morresse ali, seria confortável, estava quentinho e não tinha ninguém me enchendo o saco.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas.

No final da meditação a gente volta. A gente dá um recado pro nosso eu ainda criança e diz pra ele algumas coisas que queríamos ter ouvido.

Quando se volta, a vida transborda. As pessoas ao meu redor estavam assim, cantando, pulando, dançando, vibrando.

Você percebe que ainda tem tempo, que pode fazer mais, viver mais, concluir os seus projetos, os seus desejos, demonstrar mais amor a quem você quer, enfim, a vida continua.

Só que eu fui a única pessoa que meio que não queria ter voltado.

Pra mim, a vida estava concluída. Todos os meus projetos estavam feitos e eu amei todas as pessoas que passaram pela minha vida, todos os dias, como se cada dia fosse o último.

Haviam situações que eu podia ter feito melhor? Claro, com certeza, mas eu fiz o meu melhor. Errei muito com essa ex que comprou o curso, e queria até fazer algumas coisas diferentes, mas eu fiz o meu melhor.

Eu vivi a melhor vida que eu podia, portanto estava satisfeito e pronto.

Só que a minha vida não acabou ali. Enquanto eu estava Ok com aquela situação as outras pessoas não, e isso me incomodava.

Eu fui no Gilson, e fui no Alok (não é o DJ) que é uma grande inspiração pra mim. Perguntei: “Por que eu não queria voltar? Por que eu estava satisfeito e queria ter continuado naquele estado de morte?”

Eles me deram a resposta que todo Zen dá e que mais irrita as pessoas: “Essa resposta só você pode encontrar em si mesmo.”

Mas o Alok me ajudou um pouco mais.

“Talvez, você estava satisfeito de ter morrido porque a sua vida não estava tão boa.”

Isso fez sentido!

Aí como um efeito retardado, a vida começou a transbordar em mim depois. Eu percebi que: Se eu estava fazendo hora extra, que pra mim já estava OK ter morrido, que eu já tinha feito tudo o que eu queria, que agora eu não devia nada ao mundo nem a ninguém, e podia viver e fazer o que eu quisesse por mim.”.

Fez mais sentido ainda quando eu parei pra me analisar durante um tempo, e vi que: eu mudei a vida de duas pessoas com um curso, mudei a vida de muitas pessoas com uma festa, mudei a vida de muitas pessoas pro ter me relacionado com elas, então vou ser o novo Buda. Até desenvolvi uma barriguinha parecida. Hahaahhaa

Mas sério, eu não queria ser o Buda.

Eu só pensei que poderia mudar a vida das pessoas e eu queria fazer diferença, queria que tivesse existido alguém como eu na minha vida.

Aí eu tentei.

Gastei mais de 20 mil em curso de tantra.

Gastei mais de 15 mil em curso de marketing digital.

Na minha cabeça, eu achava que as pessoas precisavam do que eu tinha que ensinar pra elas, e que era aceitável eu forçar isso um pouco.

Já fiz muita pressão psicológica para as pessoas comprarem meus cursos, e valeu a pena para as pessoas, mas me desgastava muito. Eu ODEIO ter que ficar colocando medo nas pessoas pra elas perceberem os riscos que correm com as pessoas erradas. Eu ODEIO ter que dizer para as pessoas que sem o que eu ensino pra elas, o BDSM delas vai ser miserável e elas vão ser infelizes.

Só que o meu ego entrou na jogada. Quem me conhece e acredita em mim não precisa de pressão. Quem não me conhece ou mesmo não acredita em mim, não me merece.

Então eu não precisava forçar.

A jornada mudou e eu comecei a me mostrar mais. Eu comecei a ser mais autêntico e a influenciar isso nas pessoas. Eu queria que as pessoas fossem mais verdadeiras.

Teve um “ex amigo”, dois na verdade, que diziam amar as namoradas e eu acreditava nisso, só que os dois carregavam grandes segredos e tentavam se mostrar melhores do que eles realmente eram, simplesmente por medo.

Num deles eu contei: “Seu namorado perdeu a virgindade com uma puta, eu estava lá, eu paguei a puta.”

No outro caso eu contei: “Seu namorado tentou abusar de uma menina embriagada.”

Os dois admitiram, contaram o caso todo na versão deles, pediram desculpas, acho que aprenderam com isso, eles seguiram a vida como casais. Eu perdi as amizades, tranquilo sobre isso.

Talvez desse pra ter feito diferente? Talvez. Mas foi o melhor que deu, e eu to tranquilo com isso. O da virgindade com a puta vez ou outra aparece querendo retomar a amizade, o casamento está cagado. O outro eu não tenho notícia. Mas eu não preciso mentir pra namorada de ninguém, nem esconder nada.

Nisso de buscar ser mais autêntico, eu criei o A.Puros. Ou Ares Puros. Ou o Clubinho do Ares que busca autenticidade.

Nisso também eu percebi que eu to com muita gente dos Estados Unidos e Europa que consomem meu conteúdo através de google tradutor e legendas traduzidas automaticamente do youtube.

Passei a me questionar se vale a pena ou não continuar com isso tudo, ou mesmo mudar alguma coisa.

Ai fui ver o kinky.com.br este blog.

Eu percebi que Kinky não combina comigo. É meio fofinho demais, não mostra quem sou, e não mostra o quão forte e dura a transformação pode ser.

Então eu vou mudar isso tudo.

Basicamente esse texto todo é pra dizer isso: eu mudei muito desde que me conheço por gente e eu vou mudar mais um pouco. Você vem?

  1. Dom Roger Dom Roger

    Ótimo texto, muito inspirador!! Sou muito grato de ter participado de uma pequena parte dessa história.

    Obrigado por me receber na comunidade e compartilhar seu conhecimento com todos.

    Grande abraço!!

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