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Assombrações

Ares 1

Há sempre assombrações em nossas vidas, essas assombrações são criadas por medos, incertezas, inseguranças, no passado ou no futuro, nunca no presente.

Se você está no presente, não há o que se fazer, se não viver aquilo. Se você sofre, por algo em sua vida, aquilo já está no passado, 1 segundo que se passa é passado. Enquanto que se você antecipa, 1 segundo a frente já é futuro, se você está pensando a frente, é futuro.

Como bom pensador que sou, que pensa em tudo. Que sofre pelo passado e reflete de tudo o que fez. Como poderiam ter sido melhores as reações? Como poderiam ter sido melhores as conversas? Como o passado poderia trazer um presente melhor, e talvez um futuro perfeito numa perfeição digna de qualquer humano médio, sem talento, sem beleza ou inteligência fora do comum.

Nunca me vi como alguém especial, porém sempre sonhei em ser especial.

Era algo que, não nego, me movia. Eu enquanto alguém que nasceu com nada, que foi dada a melhor educação possível, num patamar de família classe média baixa, que hoje vejo, se tornou um adulto que tem complexos de inferioridade e insuficiência, desejava ser especial. Eu achava que tornar a vida das pessoas melhor, me faria ser valorizado, eu acreditava que dividir o lanche, dividir o dinheiro contado, pra pagar por horas de lan house e de diversão com jogos eletrônicos era o caminho, eu cresci com medo de ficar sozinho.

Por um tempo, depois de adulto, desapeguei dos meus amigos, percebi que as vezes, pela ausência, eu seria mais procurado e valorizado. Era injusta a ideia de que pra ser valorizado eu deveria ser ausente, sendo que, o que eu queria era passar mais tempo com meus amigos. Eu tinha medo de ficar sozinho, por isso as vezes me tornava ausente e sozinho, pra não estar mais sozinho.

Enquanto amante, alguém que ama, que se entrega, que se joga, eu descobri que mostrar interesse assusta. Interesse na forma de convite, Interesse na forma de disponibilidade, interesse na forma de curiosidade, tudo isso assusta.

Assusta, pois, todo mundo “mostra” um interesse que não é real. Não sendo real, pois, quem demonstra interesse não necessariamente, quer ser interessado, normalmente quer uma necessidade atendida. Ou assusta, pois, o interesse deixa dúvidas, “eu não sou especial, o que essa pessoa quer comigo?”

“Eu quero alguém pra me satisfazer sexualmente, por isso tenho que demonstrar interesse, flertar, conversar e convidar pra uma cerveja antes. Não ligo a mínima pro que a pessoa fala, pro que ela faz e pra quem ela é, só quero saber quando vai rolar o que desejo.”

Interesses efêmeros, que duram o tempo de um orgasmo, de uma necessidade atendida. Eu não sou assim.

O que há além do orgasmo?

Intimidade? Deus me livre, jamais. Visto minhas roupas e me vou. Com o tesão satisfeito, uma necessidade efêmera satisfeita e um vazio.

Da mesma forma, as pessoas que sentem que há alguém interessado por elas, tendem a duvidar.

Sentem que é por tesão, que a outra pessoa só quer usar. Só quer gozar, só quer um orgasmo e tem nada a oferecer, sentem “só quer me comer”, tornando todo e qualquer interesse efêmero, e desinteressante.

Eu posso gozar muito, me satisfazer muito, mas se a outra pessoa quer me usar, independente do beneficio mutuo, há algo errado. Não é justo me usarem, mesmo quando eu vou ter vantagens claras e óbvias, numa troca desigual porem interessante.

Há também, na duvida da pessoa interessante, a duvida de que isso é real? Como alguém pode se interessar por mim? Eu sou normal, eu sou um lixinho. Eu fui criado assim, como alguém que era amado, mas ensinado a ser insuficiente o tempo todo.

Na minha casa, eu vivia e ainda convivo com coisas do tipo “tudo bem que você fez 3 reais mil em uma noite, mas e o seu futuro?” “Eu estou preocupado com você, pois você não tem uma faculdade”, “desde que você saiu do seu emprego de carteira assinada, seu padrão financeiro está caindo.”

Se há abundância, há medo de que a abundancia acabe. Se há pouco, é o medo de que falte.

Ambos medos.

Eu como bom pensador que sou, percebi recentemente que o medo é o que move o ser humano.

A nossa principal necessidade básica é sobreviver e a sobrevivência vem de um fortíssimo instinto de autopreservação, que se não controlado, vira medo de viver.

O desejo de controle é uma forma de ter medo de viver.

Quando se é insuficiente, como sou, tenta-se aumentar o controle para compensar. Quando se foi abandonado, tenta-se controlar as interações das pessoas com quem se está. Afinal, se não conhecer ninguém mais interessante do que eu, não vai perceber o quão regular eu sou.

Nessa de ser regular, eu descobri o que me dói. Eu perdi em algum momento o desejo de ser especial, e isso me assombra.

Me assombra, já com minha idade avançada, e não diga que meus 31, quase 32 são poucos anos. Que ainda sou jovem e que ainda tenho muito que viver.

Não.

Cada dia vivido é um dia a menos, e a única certeza inevitável é que eu vou morrer.

“Que tom fúnebre? Pra que tanto pessimismo? Falar de morte é ruim.”

Disso eu acho graça. Onde falar de morte é ruim? É a única certeza que temos, de que tudo vai acabar um dia. É melhor falar de incertezas, sonhos e futuro de que não temos controle do que falar da certeza que temos no futuro?

Eu vi e vejo muito, muita gente se negando a aceitar que vão morrer, sozinhas, em uma caixa, enterrada ou queimada, tendo sua existência apagada.

Você foi regular a sua vida toda, depois que você se for, só com quem você teve momentos extraordinários, fora do comum, é que vão se lembrar de você.

“Nossa, lembra aquela vez que fomos no supermercado e compramos coca cola? Foi um dia extremamente comum, sinto saudades.”

“Não.”

Nunca, na vida, nunca em morte, se lembram dos dias normais, nós nos esquecemos deles.

É por isso que ser regular dói, ser comum e ser ordinário é incomodo. Ser comum e ser ordinário é ser esquecido. Nós nos negamos a olhar a morte de frente, por isso procuramos ser especiais, anormais e fora da curva. Pra sermos lembrados.

Numa dessas viagens, numa dessas meditações e num desses caminhos do amor, que eu devo muito ao meu amigo Gilson Nakamura.

Houve uma meditação que mexeu comigo, alguns dos meus amigos mais íntimos sabem, e eu nunca senti necessidade de expor isso pra outras pessoas, mas eu vou expor, quem sabe mexe com você.

A meditação era uma experiencia de morte. Você não morria de verdade, você meditava e vivia uma experiencia com a ideia de morrer nela, mas tudo imaginação e de brincadeirinha.

Fica mais fácil pra você se eu falar que é brincadeirinha, eu levei bem a sério e me mudou.

A gente deita.

Ai a meditação é guiada.

Começa fechando os olhos.

Fala pra você ir pensando nas coisas, nos projetos, nas coisas materiais, nas pessoas do trabalho, nos amigos, nos familiares, nos amores, em tudo.

Você praticamente faz um balanço da sua vida.

E começa a se despedir, você vai morrendo na meditação.

Sentindo a vida se esvair, murchar, secar. Aquela abundancia de vitalidade dos dias extraordinários se esgota como um dia comum, um domingo em frente a TV.

E aí você se despede de tudo, se vê em um caixão, tem a procissão, o velório e etc.

É meio doido, na sala tinha gente chorando.


E eu estava de boa. “Pronto, morri. Acabou. GG (Good Game, pros aficionados). Valeu, falou, fica assim, até nunca mais”

Eu estava de boa.

No balanço que fiz da minha vida, eu realizei muitas coisas materiais fodas. Tive muitas viagens muito doidas. Amei e fui amado. Terminei meus cursos de BDSM, mudei a vida e o mundo de algumas poucas pessoas felizardas.

Podia ter tido mais coisas fodas? Podia, mas pra quem cresceu sendo insuficiente, e com medo, minha vida foi do caralho.

Tudo isso me deixava satisfeito.

Morri, não tem o que fazer.

Mas aí que o bicho pega.

Você se despede de si e tem a chance de falar algo, de se desculpar consigo mesmo. De eventualmente dizer algo que você gostaria ter dito, seja positivo, ou realista. Qualquer coisa.

É muito doido.

Eu falei, e estava OK. Pronto. Morto de morte morrida.

Mas aí, piora. Piora pra mim, claro, eu estava confortável na minha morte de morte morrida.

Piora, pois, na meditação, você volta.

Você recebe uma “benção” de viver de novo, de ter mais tempo.

Piora, pois agora, você tem o balanço da sua vida, afinal você despediu de tudo que era importante pra você, e é foda. Se não veio enquanto sua vida estava passando diante dos seus olhos, você sabe que talvez aquilo, ou aquela pessoa não sejam importantes.

Piora, pois você falou o que precisava ser dito pra si mesmo.

Piora, pois agora você tem mais tempo.

Quando eu voltei, na sala tinham mais pessoas. Não foi uma meditação que fiz sozinho, tranquilo, na minha cama, no meu estúdio, confortável e escondido, foi algo que fiz com mais pessoas.

Foi bizarro, eu pude ver nos olhos, na energia daquelas pessoas, que elas estavam felizes. Afinal elas tinham como completar o que era importante pra elas. Falar com as pessoas importantes, terminar os projetos importantes, concluir as coisas importantes pra elas, e por ter passado a vida delas, elas sabiam exatamente o que eram essas coisas.

Eu por outro lado, estava doído. Eu estava confortável de ter morrido, tinha feito tudo o que me era importante. Tinha cumprido o meu propósito de vida, tinha feito tudo o que queria. Eu tinha tido uma vida ótima e uma morte ótima. Sem arrependimentos. NADA de arrependimento.

Mas eu estava arrependido de ter voltado, de ter que continuar a viver.

Eu fiquei pensando nisso, extremamente incomodado.

“As pessoas da sala estavam numa energia alta, ótima, feliz, de vida, e eu estava ok.”

Como estava ali, minha energia naturalmente é alta, eu me entreguei a energia deles, e dancei, aceitando e tentando entender.

Disse pra mim mesmo: “Não estou morto, e já fiz tudo o que tinha que fazer, então vou aproveitar esse tempo extra”.

No intervalo, desci e fui pra rua, confraternizar com os fumantes. Eu ainda precisava entender e fui procurar um amigo que fiz nesse dia, o Alok, como o DJ, mas veio antes, e é muito mais foda, só não é DJ.

Falei que estava bem se eu estivesse morto, e porque tanta discrepância? Por que pra mim estava OK ter permanecido morrido, e pras outras pessoas não? Por que elas estavam tão felizes e eu não?

Ele me falou uma coisa que me fez sentido.

Talvez, você se sentiu bem morto, pois sua vida não estava tão boa.

Naquele momento achei que pudesse ser isso. Minha vida não estava mesmo tão boa. Eu tinha muitas contas pra pagar, não estava apaixonado, não estava amando, não tinha um relacionamento com reciprocidade. Não tinha nada que eu julgasse ser fodastico.

Hoje em dia eu não sei mais. No momento que escrevo, isso já tem 1 ano.

Minha crença hoje está mais pro seguinte: Eu já estou fazendo hora extra aqui, mas não pretendo morrer tão cedo, eu sou especial pra aqueles que querem que eu seja especial na vida deles, mas continuo sendo insuficiente pra mim mesmo.

Eu tenho meus limites, e sei bem o que quero e o que eu não quero. Só que eu desisti de mudar o mundo.

Sabe aquelas reclamações que a gente lê e escuta o tempo todo? Sobre meio, sobre siglas, sobre pessoas, sobre o tempo, sobre roupas, sobre dinheiro, sobre coisas supérfluas?

Então, eu estou pouco me fudendo.

Não é ligar o fodas, é diferente, eu só não rendo. Normalmente costumo encerrar com uma solução, quem quer reclamar perde o rumo quando damos uma solução, por pior que seja.

Com o meu tempo extra, eu decidi só que não queria viver momentos ruins.

Mas minha assombração, agora que você já me entende um pouco mais, é só que eu não sei direito o que quero.

Dá pra ficar rico com BDSM? Sim.

Dá pra mudar o meio, abrir clubes BDSM pelo brasil, cortar todas as pessoas tóxicas, começar uma nova era de amor, realização pessoal, realização sexual, uma era de ouro? Dá.

E eu posso estar parecendo extremamente arrogante de dizer isso, que eu conseguiria fazer tudo isso guiando esse processo todo? Sim, mas de vez em quando eu posso me dar esse luxo, afinal, meu blog minhas regras hahahhaa.

Mas eu tenho preguiça. Eu não vou colocar esforço em tentar criar tudo isso. Eu estou extremamente seletivo com as lutas que luto, e eu não vou lutar pra você, por você.

Você, se quiser, que lute.

Eu no máximo te ajudo, e mesmo assim se você pedir ajuda. Mesmo assim, se você se comprometer.

Eu não vou aprender por você, eu não vou fazer por você, eu não vou transar por você, pra você ter só o orgasmo.

Tô de boa. Quero não.

Meus limites estão aí bem estabelecidos, mesmo que você não veja sempre.

Mas te digo, quem sabe você não aplica também.

Entra na minha vida quem eu deixo, quem eu convido, permanece quem quer.

Mesmo que você não tenha certeza do que quer, tenha certeza do que não quer.

Eu escolhi onde estou hoje, o que faço, com quem faço e como faço.

Eu sou assombrado por não saber direito o que quero.

Mas, e um grande, MAS.

Eu não sou assombrado por escolhas que não fiz.

Eu não sou assombrado por escolhas de outras pessoas.

“Se você escolheu não me amar é problema seu.

Se você escolheu me amar, eu fico grato.

Se você escolheu me amar e você me atrai, vamos pra cama hahahaha.”

Escolhe e seja responsável.

Obrigado por me ler.

Eu escolhi compartilhar com você, e sou grato por você ter escolhido ler.

  1. PÇa PÇa

    Realmente foi uma leitura bem densa, mas muito válida. Me identifico muito com alguns aspectos de personalidade e linhas de pensamentos e refleti bastante sobre tudo que foi exposto.
    Senti uma aproximação muito grande com a realidade da maioria das pessoas solitárias, e me incluo entre elas. Dificilmente nos afastamos por impulso de estar sozinho, mas pelo desejo de ser reconhecido na ausência, como você mesmo expõe no texto, mas hoje acredito verdadeiramente num dito que diz em essência algo do tipo: se te valorizam, demonstram de forma clara, evitando que sua ausência se torne uma realidade.

    Quando diz ‘Nunca me vi como alguém especial, porém sempre sonhei em ser alguém especial’, e em seguida afirma que isso te movia, no passado, completando a leitura, não consigo interpretar que seja uma realidade que não te move mais, eu não acho que perdemos o desejo de ser especial, perdemos a fé de que encontraremos a pessoa que nos fará sentir especial, e essa falta nos torna desmotivados, apáticos. Nem sonhadores, nem mórbidos. Apenas nulos em questões de expectativas afetivas.

    Penso que essa “apatia” com a discussão morte x vida, que até certo ponto também compartilho, acontece pois de fato desacreditamos que exista a pessoa que vá querer nos conhecer e se aprofundar em nós a ponto de nos fazer sentir verdadeiramente especiais, que crie sincronia com nosso ser.
    Porque ao meu ver, apenas uma sincronia perfeita, nos permitirá alcançar o auge afetivo/emocional que em essência buscamos, de forma consistente e permanente, e não efêmera como temos experimentado até então.

    Afinal, as experiências vividas têm sido passageiras e com isso nos condicionam a sermos rasos, não num sentido ruim, apenas com a intenção de nivelar com o que nos é oferecido, na esperança de afagar nossas expectativas “irrealistas” e viver de forma satisfatória, porém acabamos insatisfeitos ou insuficientes.

    Sinto que as pessoas têm uma ideia restrita acerca de intimidade. Uma receita do que deve ser e um limite de tempo para o momento em que ela deve ser atingida.
    Nossa cultura é de grande acesso, mas nenhum acesso, e isso nos torna muito comparativistas e nos dá ideais irreais para serem alcançados.

    Queremos intimidade criada, e não guiada ou imposta. Intimidade que una exclusivamente aos diretamente envolvidos na equação, não determinada por parâmetros externos, mas atingida pela sincronia do respeitar, querer e ser.

    Em nossos relacionamentos experimentamos, tentamos, sentimos prazer, afeto, fragilidade, excitação, frustração e mais uma vez, desconexão. Não alcançamos nosso ápice, de novo. Por isso, muitas vezes, até não entendemos a facilidade como outras pessoas se sentem completas, satisfeitas, realizadas, em algum ou alguns relacionamentos ao longo da vida, enquanto apenas idealizamos nosso momento.

    Falar de morte, acaba não sendo tabu para quem compartilha dessas questões porque vivemos em um limbo em algum setor primário da nossa existência, seja afetivo, emocional, profissional ou qualquer outro que julguemos essencial.
    O ‘Pronto, morri, acabou’ é um sentimento que seria compartilhado, e o ‘estar de boa’ com o fim é a prova inquestionável de que não estamos em contato com aquilo que nos move de verdade, e não de que somos insuficientes.
    Penso que simplesmente não estamos completos ainda, e também não sabemos do que nos encher. Talvez no seu caso, você tenha a dedicação ao BDSM, repito, talvez, como sua missão nessa vida, mas se nesse aspecto você é bem sucedido, e mesmo assim não se sente pleno, orgulhoso de si, completo, suficiente, então significa que você precisa se conhecer mais, se permitir mais, se redescobrir e ouvir qual é seu chamado real. Família? Dinheiro? Amor? Afeto? Fama? Aprovação dos seus? A mim ou a ninguém, caberá julgar seu chamado, mas cabe a você, aprofundar-se um pouco mais em seus anseios e desejos e se realizar.

    Espero de verdade, que isso tudo faça algum sentido e te possa acrescentar ou mesmo direcionar para mais alguma reflexão, pois o que você escreveu, a mim, muito mostrou.

    Foi incrível! Obrigada

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