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Pelo corpo eu te quis, pelo corpo não me quis

Ares 0

Esse é um texto baseado numa história pessoal, e também algumas reflexões trazidas por Osho através de um livro que estou lendo.

“O amor não enxerga forma física, o amor vai além da dualidade dos seres”.

Conheci há algum tempo uma pessoa.

Quando nos conhecemos, ela havia me adicionado no WhatsApp. De acordo com ela, eu fui meio grosso, meio “pau no cú”. Posso ter sido. Desde aquela época, até hoje, eu ando meio cansado das Dominadoras e do meio Femdom, pra mim tem defeitos estruturais permeados por ignorância, mas isso é pra outro texto.

Ter sido “meio pau no cu”, pode ter significado que eu não estava aberto. Pode ter significado também que eu a peguei numa mentira, e isso me fez ficar com o pé atrás. Nós humanos “digitais” temos pouca tolerância a mentira, e o nosso detector de mentiras está sempre ali, mesmo que não haja mentira, ele está ali te alertando.

Ela tinha me dito que era garçonete, ninguém que trabalha em um bar ou em uma lanchonete se chama de garçonete, todo mundo fala “eu trabalho em um bar”. Falar que é garçonete é coisa de filme da Disney. hahahahaa

Independentemente dessa mentira, que ela usou em legitima defesa pra se resguardar de alguém que acabara de conhecer, e que não tinha nenhuma informação além de uma foto de perfil, ela era perfeita pra mim.

Cheia de defeitos, “defeitos físicos”, e “defeitos psicológicos”.

Independentemente do que você acredite ser defeito, sempre tem alguém que acredita que alguma característica é defeito. Ela não gostava das próprias estrias, eu achava lindo. Ela tinha um problema com as gordurinhas da barriga, eu acreditava que era sinônimo de felicidade, de comer carne e tomar cerveja aos finais de semana. Ela queria mudar várias coisas em si mesma, eu somente a aceitava.

O corpo dela tinha “defeitos” pra mim, nada é absolutamente a prova de defeitos, mas eu acredito que defeitos tornam a pessoa humana. Da mesma forma que os traumas, as dores, e os “defeitos psicológicos” podem trazer empatia, ou isolamento.

No caso dela, ela estava em isolamento, tentando se abrir.

O ex marido tinha traído, abandonado e feito as escolhas que ela não quis fazer pelo bem do relacionamento, e como ele era o pai da filha dela, o vinculo ainda se mantinha. Ela procurava uma fuga, e caiu no BDSM. Ela procurava uma fuga e caiu logo no meu colo, alguém que sempre cuida de quem gosta, e eu já gostava dela.

Eu não escolhi pela idade, ela estava fora do meu padrão. Eu nunca gostei de pessoas da minha idade, com diferença de 1 ou 2 anos. Eu sempre gostei de pessoas com diferença de uns 4 ou 5 anos, pra mais ou pra menos. Eu lido mais fácil com pessoas em momentos de vida diferentes dos meus, e a idade é um grande influenciador.

Quando eu escolhi ela, eu escolhi por uma série de fatores, cada um com seu peso, mas todos importantes. Eu escolhi pela nerdice, pela inteligência, pelo corpo, pelos fetiches, pela perversão, pelas coisas ruins, por querer se abrir.

Sem dúvidas, a quantidade de coisas em comum traria empatia. A inteligência traria uma facilidade na comunicação, pessoas inteligentes tendem a conversar mais facilmente sobre tudo. Os fetiches e a perversão, eu já conseguia ler nos olhos dela, eu sabia que tinha muito sendo reprimido, e confirmei isso ao longo do relacionamento.

Na época, eu dava o que achava que ela precisava, que era segurança e uma forma de lidar com as coisas ruins do passado dela, pra ela se tornar mais livre e se abrir mais comigo. Na minha cabeça, se eu “terapeutizasse” ela, ajudasse ela a lidar com os traumas, ela poderia curtir mais os fetiches dela comigo.

Eu queria ela de látex. Eu queria inversão. Eu queria jogos de interpretação de papel. Eu queria ser “obrigado” a fazer coisas. Eu queria muitas coisas.

Na minha cabeça, quanto mais empoderada, mais “terapeutizada”, e mais bem resolvida ela fosse, mais ela seria grata a mim, e mais gostaria de viver as coisas comigo. Eu teria aquela Deusa como companheira. Pra mim parecia uma troca justa.

Enquanto pessoa, ela cresceu muito, se tornou muito melhor do que era pessoalmente.

Mas pensa, o tanto que é incomodo se uma pessoa procura uma fuga, uma fuga no BDSM, e é confrontada a resolver seus problemas?

No relacionamento, isso criou um distanciamento gigante. E os egos começaram a agir.

Do lado dela, eu sinto, que ela se sentia inferior a mim. Eu era o “fucking zen” que terapeutizava e tinha muitas respostas. Eu era o cara que tinha vencido boa parte dos meus traumas e ajudava as outras pessoas. Eu era a pessoa que conseguia ler ela superbem, de forma a deixa-la inconfortável. O Ego dela dizia pra ela que ela era insuficiente. Que a minha experiencia no fetiche, e a inexperiência eram problemáticos, afinal eu queria alguém pra se encaixar no meu fetiche, eu queria um corpo e uma atitude, não queria ela como pessoa e completa.

Do meu lado, eu estava cada vez mais satisfeito com a transformação dela. Eu peguei uma pessoa com problemas, que estava fugindo e levei ela a ser melhor. Eu a ajudei a confrontar os seus problemas, a lidar com questões relativos a toque e abertura. Na ideia que eu tinha de “mestre” e “aprendiz”, eu estava no meu melhor.

Mas eu negligenciei muita coisa, ela não era perfeita pra mim. Ela era perfeita pra si mesma e estava no seu melhor. E eu pedi pra que ela deixasse isso, e se adequasse a mim e aos meus desejos.

Eu quis o corpo, agindo num papel teatral, se adequando a falas, cenas e atos, pro meu prazer. Eu não quis o amor que extrapola a dualidade, eu e ela, e que se torna sinônimo de completitude.

Eu, enquanto “zen”, enquanto “mestre”, estava completamente, miseravelmente, indubitavelmente, absolutamente errado. Eu falhei de forma épica.

De acordo com Osho, e eu acredito nisso.

Mestre e aprendiz compartilham de um amor de autenticidade e de receptividade. O mestre mostra a si mesmo, e o aprendiz bebe de seu mestre, absorvendo de forma completa e receptiva aquilo que transforma o seu ser.

Olha que falha épica.

Eu quis pegar um relacionamento sexual e afetivo, entre duas pessoas imperfeitas e transformar num relacionamento “zen”, sexual e afetivo. É lógico que ia dar errado.

Com o tempo, o relacionamento terminou.

Da pior forma possível.

Eu acredito, que há muitas formas de se terminar um relacionamento, e há muitas formas de se fuder muito, e a pior delas, comum em término de relacionamento e se fuder muito, é auto sabotagem.

Auto sabotagem, dentre muitas definições, pra mim significa fazer o que você não acha certo, ou ainda fazer o que você SABE que vai te levar a um resultado ruim.

No relacionamento teve traição, aquela traição que levou ela a se fechar, se isolar e ser miseravelmente infeliz, foi repetida dessa vez como uma forma de me machucar.

Houve mentira, que foi dita como forma de mascarar uma dúvida, em vez de trazer a dúvida como forma de discutir, e dar a possibilidade de melhorar o relacionamento. Houveram mentiras que me foram ditas, e usadas pra ocultar feridas até elas se tornarem feridas incuráveis no relacionamento.

Houveram também testes do quanto eu gostava na tentativa de se ter afirmação e segurança. Testes que podem trazer respostas boas e ruins, mas que normalmente só trazem desgaste.

Houve muita coisa ruim em meio a muitas coisas boas.

As coisas boas foram celebradas, gozada e vividas. As ruins não tiveram atenção e nem um pedido de desculpas.

Foram ignoradas como se os erros não existissem, trazendo assim mais feridas de ambas as partes.

Se você não reconhece o seu erro, você não se permite melhorar.

Se você não reconhece o seu erro perante o outro, com quem você errou, você não está verdadeiramente apto a melhorar.

Houve também, mais uma repetição de ciclo.

Houve a necessidade de afastamento, mas a necessidade do vínculo.

De um lado a idealização do desejo que encontrei e construí, da construção da personificação do fetiche. De um entendimento e aceitação de que posso ser quase totalmente verdadeiro no que desejo.

De outro lado houve a idealização de aceitação completa, de entendimento, da imperfeição como sendo aceita. Da oportunidade de se tornar melhor através da autenticidade e do convívio, afinal trouxe um crescimento pessoal perceptível, mesmo as custas do relacionamento.

De tudo isso houve um desejo de amizade.

Frágil, pois não há aceitação, apenas necessidades a serem atendidas.

Eu não aceito como é, pois, preciso de um pedido de desculpa, e preciso dos fetiches. Sinto como “moeda” de troca, troca que não deveria existir. Afinal, amizade se mede em um balanço de sentir, não em trocas minuciosas.

Sinto que ainda há mentiras que servem pra ocultar verdades. “Não estou aberta ao BDSM”. Não está aberta pra mim, visto quem você é, e o que é BDSM.

Sinto que o pedido de amizade vem de se sentir aceita, sem julgamentos, mas com uma entrega e disponibilidades parciais. Pedindo amizade, disponibilidade, e principalmente atenção. Mas com o desejo de atender o que a outra pessoa valoriza, sendo limitado pela comodidade. A outra pessoa precisa de presença e atenção, eu vou fazer isso quando não tiver um churrasco pra ir, quando não tiver nada pra fazer, ou não estiver “convenientemente” embriagado e inapto a responder.

O vínculo, e o desejo de amizade, vem de necessidades não atendidas, mas tem coisas pra lidar pra desobstruir esse fluxo e liberar essa energia.

Osho diz que o amor não enxerga forma física, e vai além da dualidade do ser, do eu e de você.

Eu duvido muito que haja qualquer pessoa que realmente ame dessa forma.

Nós humanos, somos pessoas que amam o corpo, a inteligência, o gosto, o humor, etc. Nós amamos aquilo que podemos pegar, e aquilo que podemos sentir.

Nós amamos os defeitos, pois eles nos deixam confortáveis próximos as outras pessoas.

O nosso conceito de amar, vem da similaridade e do conforto que sentimos, vem de sempre procurar por caminhos que conhecemos minimamente.

O nosso conceito de amar, vem de usar máscaras que acreditamos que o outro goste e de pedir que o outro use máscaras que nós gostamos.

Tem gente que vai ser feliz assim, e eu sou uma dessas pessoas, eu me aceito necessitando do físico, do carnal, dos desejos, e das máscaras.

Eu me escondo atrás de mascaras “zen”, “mestre bdsm”, “Ares”, “Lucas”, entre outras.

Mas eu questiono constantemente os meus padrões e os meus ciclos.

Sei que não vai funcionar pra maioria das pessoas, ninguém quer viver se perguntando se o que faz está certo, ou pelo menos faz sentido. Ninguém quer conviver com uma pessoa que faz isso e que se permite mudar, é incomodo perceber que talvez você não conheça tão bem aquela pessoa, e que precisa se esforçar pra conhecer de novo. Talvez eu fique sozinho por isso.

Talvez você fique sozinho(a), se não aceitar que as pessoas mudam e que frequentemente elas pedem que você se esforce pra conhece-las de novo.

Talvez você devesse se questionar quais padrões tem repetido, quais auto sabotagens tem escolhido, ou não, as vezes a auto sabotagem que te escolhe.

Talvez você queira só repensar se as suas escolhas são mesmo suas, ou se você está vivendo a vida de outra pessoa.

Eu aceito o fato de que esse texto possa ter mexido com você, da mesma forma que aceito o fato de que esse texto possa não ter mexido com você.

Aceito também o fato de eu estar completamente errado.

Das duas formas sou grato, e quero ouvir sua opinião se quiser dar.

Dê muito, dê gostoso, dê pra mim… rsrsrs

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