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Quem gosta de sexo?

Ares 7

É natural ouvir falar “Pratico BDSM como um esquenta pro sexo”, “Pra mim BDSM tem que ter sexo”, “Se quem se submete quiser sexo, vai ter que ser extremamente foda recebendo as práticas para merecer”, “Não tenho sexo com meus submissos homens”, “Não tenho sexo com minhas submissas”, etc.

Independente do Gênero, Orientação, Cor, etc, sexo é um tabu no meio BDSM.

Estranho, né? Estamos aqui falando sobre o exercício da sexualidade, sobre como ser mais livre, sobre como ter mais prazer, e ainda sim o sexo é um tabu.

 

Vou ajudar você a tirar suas próprias conclusões.

Eu adoro essa coisa do “vamos começar do básico”.

Então, o que é sexo?

Na Wikipédia aparece muita coisa na pagina de desambiguação, mas vamos usar Sexo no sentido de Relação Sexual Humana.

A definição da Wikipedia é atrasada, mas eu vou colocar aqui a titulo de informação:

Relação sexual, coito ou cópula são termos que se referem principalmente à inserção e fricção do pênis, geralmente ereto, na vagina, com a finalidade de estimulação sexual ou reprodução, o que também se denomina sexo vaginal. As relações sexuais proporcionam intimidade física entre duas ou mais pessoas e são geralmente praticadas pelo ser humano com o propósito de prazer físico ou emocional, contribuindo para o fortalecimento de laços afetivos.
Embora os termos “relação sexual” e, em particular, “coito”, se refiram geralmente à penetração peniana-vaginal e à possibilidade de criação de descendência (que é o processo de fecundação designado reprodução), também podem ser usados em referência a outras formas de sexo penetrativo. Entre as outras formas de sexo penetrativo estão a penetração do ânus pelo pênis (sexo anal), penetração da boca pelo pênis ou penetração oral dos genitais femininos (sexo oral), penetração sexual através dos dedos ou penetração com o auxílio de objetos sexuais. Os atos sexuais não penetrativos, como a masturbação mútua, ou formas não penetrativas de cunilíngua, não estão geralmente incluídos na definição de relação sexual, embora também possam contribuir para estabelecer relações sócio-afetivas e fazer parte das relações sexuais. O termo “sexo” é frequentemente usado como forma abreviada de “relação sexual”, embora se possa referir a qualquer forma de atividade sexual. Uma vez que estas atividades implicam o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, e embora o risco de transmissão seja significativamente menor durante o sexo não penetrativo, geralmente é aconselhada a prática de sexo seguro.

Para Lesbicas ou Bi, o ato de uma tocar o órgão genital ou até mesmo os seios da outra ou fazer oral, são considerados práticas sexuais. O mesmo sobre a masturbação e oral para gays e trans. Para duas lésbicas, talvez o ato de usar um Magic Wand, possa ser considerado ato sexual. Tribadismo não tem penetração e é sexo.

 

Durante uma cena há três vertentes principais, o toque sexual, o toque erótico e o toque do cuidado.

No toque sexual, o objetivo é claramente sexual, chegar ao orgasmo, excitar de forma direta, passar a mão na região genital ou nos seios, penetrar com dedos, consolos, etc.

O toque erótico tem a ver com chupar os dedos,lamber o pescoço, interagir com áreas erógenas, que tendem a excitar, mas de forma indireta. Mexendo com as sensações e até com o psicológico.

O toque do cuidado, vem de alisar regiões atingidas no spanking, com o fim de aliviar o ardor, passar gelo, ou mesmo retirar as velas. Vem de sentir a temperatura corporal de saber se não está “quente demais” ou se a pessoa está suando frio, com pressão baixa ou propensa a desmaiar. (tem coisas que são intensas).

 

Sabendo o que é sexo e o que é interação sexual, e até a necessidade de ter sexo que existe em algumas pessoas, muitas se perguntam o por que de se praticar BDSM se não for ter sexo ou se nao for ter orgasmo?

O maior apelo do BDSM não é sobre interações sexuais e gratificações sexuais. A base do BDSM é sobre troca de poder. Sendo que isso as vezes “frita” mesmo, principalmente os que tem menos experiencia e que ainda estão ligados a Matrix de Relacionamentos Baunilha.

Quer um exemplo para te ajudar a entender?

Você já se apaixonou?

Já se apaixonou por alguém que não era uma pessoa do “estereótipo” atrativo? Pessoas acima do peso, pessoas muito magras, seios pequenos, seios muito grandes, muitos pelos, poucos pelos, algo que fugia do padrão das novelas, eventualmente até pessoas mais “exóticas” dependendo exclusivamente do que você acha exótico.

 

O ponto é que existia uma conexão mental. Algo que você não conseguia explicar, só sabia que existia paixão.

Então, no BDSM rola isso, a conexão mental, o vínculo, a química. Pode ter paixão as vezes, mas pode não ter.

O nosso maior órgão sexual é o cérebro.

 

O cérebro que cria a maior parte das coisas que nos dão “tesão”, se ele não cria, ele interpreta as sensações físicas. As vezes racional, normalmente vêm do inconsciente, mas no BDSM é sempre um conjunto que é manipulado para ajudar os envolvidos a alcançar uma intensa satisfação emocional. As vezes pode ter genital e relação sexual envolvidos, mas as vezes não.
E isso tudo é Ok, no mundo baunilha, podemos ter experiencias extremamente emocionais sem sexo e sem romance.
Inclusive, deixa eu mencionar uma forma que algumas pessoas se definem, os assexuais. Resumidamente, é alguém que não tem necessidade de ter sexo. (bem resumido mesmo, se quiser saber mais recomendo uma pesquisa mais profunda).

Há assexuais que praticam BDSM, e são bem felizes.

Eu acredito que o BDSM não é um ato sexual, mas um exercício da sexualidade. Você lida sim com coisas com conotações bem sexuais, mas não necessariamente tem que ter o ato sexual.

 

Por que Dominar/ser Top numa relação ou cena e não ter sexo?

Quando Dominamos, nós tomamos a liberdade de nos conectar com nossas personalidades que “não saem na rua”, aquele lado sádico, aquele “monstro” que você prende bem, ou qualquer outra que você tenha dentro de você. É a satisfação de ter a confiança das pessoas que são suas amigas ou das que são playpartners, e que se colocam para se submeter. É o poder de ter alguém fazendo suas vontades. É o Mindset Predatório do DomSpace. A visão fria e analítica do Predador. É a emoção da caçada. É ouvir na sua cabeça a risada maníaca da personalidade sádica que há em você. É o desafio a si mesmo de aprender e masterizar habilidades. É a alegria de causar dor a alguém que se dispõe numa cena, que consente. É o desejo de cravar os dentes na carne de quem está se submetendo. É a emoção do impacto quando as mãos colidem com a pele da outra pessoa. É a sensação de sentir uma faca, uma cane, um flogger ou um chicote como uma extensão de si mesmo. É a beleza das marcas que se deixa. São as emoções da outra pessoa vindo à tona, as risadas, os gritos, as lagrimas, e principalmente a conexão que só esse ambiente Kinky pode criar.

 

Por que se submeter/ ser Bottom numa relação ou cena e não ter sexo?

Quando nos submetemos, nós também nos libertamos, nós nos conectamos com nossas personalidades que também não saem na rua. Desde as personalidades que gozam de devassidão, até as que necessitam de cuidados especiais. Já imaginou como seria se você fosse “brat” com todo mundo? Ser bottom tem a ver com sentir a antecipação antes da cena. As vezes o sentimento de terror. É a liberdade de enfrentar seus medos. É a entrega, a concessão do poder a outra pessoa. O orgulho de fazer alguém feliz. O sentimento de receber a atenção e o cuidado, de ser amparado. É o abraço das cordas e de correntes. É sentir a dor da cane. É sentir cada golpe do flogger. É curtir o ardido de cada tapa. É a ausência de peso da suspensão. É saber o que se tem que fazer seguindo os protocolos. É a liturgia imposta por quem Domina. A alegria de “sobreviver” a cena intensa. É a beleza das marcas. É curtir o estado do subspace. É a embriaguez da endorfina e da adrenalina. A confiança que se aprende a dar. A proteção que se aprende a receber. São os sorrisos, as gargalhadas, os gritos, e principalmente a conexão que só esse ambiente Kinky pode criar.

 

Praticar BDSM é sobre se conectar consigo mesmo e com o outro. É se conectar de forma mais verdadeira e mais visceral.

Meu ultimo post foi um agradecimento, justamente pelas conexões que eu fiz. Amigos mais verdadeiros e que me conhecem melhor, sabem do meu lado pervertido e encorajam, ou no mínimo respeitam.

Praticar BDSM é sobre sensações. Sobre superar os seus limites, os seus próprios prazeres. É sobre criar cenas, perspectivas, plays. É sobre viver o que se cria. É sobre ser criativo.
Fazer parte de uma comunidade é sobre os vínculos. É se sentir aceito. É sobre não se sentir pressionado a ser o que não se é. É sobre gostarem de você do jeito que você é. É sobre ser encorajado a buscar quem eu sou, quem eu posso ser. É ter um espaço em que eu me encaixo sem mascaras. É me mudar somente se eu achar necessário. É sobre energia. É sobre cuidado, sobre suporte, sobre dar, sobre receber, sobre respeito, sobre o equilíbrio que somente o um meio de “desajustados” pode reunir.
Ser Kinky, Ser praticante de BDSM, não é sobre sexo, é sobre outras coisas que importam mais. Eu não tenho que ter sexo com você pra aprender com você ou te ensinar. Eu não preciso de atração sexual pra cuidar ou me importar com meus amigos pervertidos.

Cada pessoa é única, e aceitar o outro nas suas diferenças é o que faz essa proposta Kinky e BDSM tão foda. <3

É por isso que eu pratico BDSM, eu exercito o meu fetichismo e me permito ouvir o outro sem julga-lo.
Tente fazer esse exercício de praticar BDSM sem sexo e se conectar com outras pessoas de outras formas.

 

Informação importante 1: Não é para ser “Zen”, calmo e ficar dizendo “gratidão” a todo momento. É só para repensar sua forma de viver BDSM, e encontrar motivos melhores do que um “sexo apimentado”.

Informação importante 2: Se você não vive sem sexo e acredita que tem que ter sexo toda sessão, Ok! Mas agora você já sabe que há mais do que isso.

Informação importante 3: Se as pessoas as quais você se cerca são pessoas que te julgam, te pressionam, te limitam e não te fazem bem, a culpa é sua! Então mude. Mude a si mesmo e talvez o circulo social que você está inserido(a). Eu já tive amigos que não foram legais comigo, guardo carinho pelas lembranças boas, lições pelas lembranças ruins, e deixei essas pessoas no meu passado. Faça o mesmo, vai ser muito bom.

Informação importante 4: Eu estou em contatos com grupos sociais que representam algumas minorias, gays, lésbicas, e trans, que praticam BDSM, e numa conversa eu vi necessidade de mudar esse texto, se ainda sim tem algo que te incomoda, converse comigo sobre, por favor.

Como sempre, adoro ler comentários!

 

 

  1. Mirella Mirella

    Perfeita sua colocação. Vivi e voltei a viver esta forma de vida e me sinto plena e realizada com alguém ao qual entreguei minha vida. Obrigada.

    • Ares Ares

      Para algumas pessoas há uma entrega e uma química mais superficiais, para outras há algo extremamente profundo como uma missão de vida. Fico feliz que tenha encontrado seu equilíbrio e que esteja feliz em sua relação.
      Obrigado por ler e por comentar. <3

  2. MarkRadar MarkRadar

    Não vou negar que sempre tive curiosidade sobre o meio BDSM. Meu primeiro “contato” foi com vídeos da internet (anos atrás), mas eu os considero muito contaminado com o apelo sexual imposto pela indústria pornográfica… então resolvi procurar pessoas de “carne e osso” para falar sobre o tema. Sou iniciante (um leigo na verdade), mas eu vejo até o momento o BDSM sob duas perspectivas.

    1º) eu vejo BDSM como uma entrega ao seu intimo. Você confia a sua intimidade , o seu desejo mais “secreto” àquelas pessoas que podem ser sua amiga ou um conhecido. O prazer é mútuo. Enfim, concordo com você Ares.

    2°) eu vejo o BDSM como uma arte! Sim, você leu certo… eu o vejo como uma arte (coisa extranha, né?). Imagine só o ambiente criado para uma sessão: as correntes, as vestimentas de couro, a decoração, a forma de conversar, o vocabulário usado, o spanking em si, etc. Na primeira vez que vi pessoas praticando na minha frente em um evento eu simplesmente passei a admirar toda a prática BDMS como quem senta em um museu ou feira de arte e admira o trabalho oriundo do mais profundo desejo e sentimento do autor. Para mim, é uma junção quase perfeita entre prazer e cultura… estimula o corpo e a mente. Não sei explicar ao certo ainda, pois como falei tenho pouca experiência.

    • Ares Ares

      Interessante o comentário rs.

      Eu também comecei a me interessar por BDSM através de pornografia, e disso vêm a conclusão de que como você chega, não é tão importante em comparação a forma como se desenvolve.

      1 – O BDSM é um exercicio da sua sexualidade, da sensualidade e do erotismo. Nunca é só sexo.
      2 – O maior prazer de um Dominador está na contemplação, você monta a cena, você dá ordens, você aplica as práticas e em cima disso você se delicia. Isso faz sentido pra vc? rs

  3. Mistress V Black Mistress V Black

    Que delicia de texto !

    Vai de encontro com a minha forma de ver e viver os fetiches.
    Trata-se de libertação física, moral e mental. Desejos primais ficam quase sempre em outros planos.
    Percebo uma evolução contínua na vida dos que praticam. Equilíbrio define.

    • Ares Ares

      Obrigado pelo comentário! Fico feliz que tenha se identificado.

  4. Eu acho que nunca na minha vida vou cansar de bater palmas ao Senhor que se permite vou chamar de amigo, eu me identifico com cada leitura que faço por aqui e tento passar isso nas conversas por aí, é uma pena que no Mundo atual e cheio de livros e filmes que nos banalizam e até agridem seja tão difícil fazer as pessoas entenderem e aceitarem o BDSM como ele é ou como nós os vimos e sentimos, mas eu tento faço a minha parte e procuro ser o mais real possível em tudo que aprendo seja com os amigos ou com meu Senhor a quem tenho a honra e prazer de servir. Obrigada por mais esse texto.

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