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Quer conhecer alguém? Dê poder a esse alguém!

Ares 0

Esse acaba por ser um ditado popular.

 

“Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê a ela algum poder”

 

Quando se fala de BDSM, há sempre um jogo de Dominação e submissão. Há um contexto e uma cena criada para viver aquela experiência e aquela fantasia. Um Dominante, que imaginou tudo aquilo, preparou os acessórios e deixou tudo organizado para que a coisa fluísse. Mesmo que o Dominante ficasse sentado e dissesse ao submisso o que e como organizar as coisas, mesmo que fosse originalmente uma fantasia do submisso, mesmo assim o Dominante pensou na coisa toda. Ou deveria ter pensado.

 

E é interessante frisar o seguinte, a base do jogo de BDSM, é a troca de poder. O submisso na ânsia de servir de objeto de desejo de seu Dominante, diz a ele os fetiches que tem, e dessa forma o Dominante faz uso do corpo do submisso para realizar o fetiche de ambos. Eventualmente o submisso abre mão de controle da situação para confiar no Dominante. É isso que acontece quando o submisso se permite vendar, amarrar, amordaçar, ou se submete a algo em que se coloque vulnerável de forma geral.

 

Quando não acontece essa troca de poder, não é propriamente BDSM, pois não tem a Dominação e a submissão. Sem a troca de poder, o jogo em si, se torna apenas fetiche, o que também é ótimo, só não é BDSM.

 

Bom, com tudo isso dito, você já sabe a diferença entre BDSM e Fetiche.

 

Então para ser BDSMer, praticante, você tem que receber o poder de controlar uma determinada situação, ou ceder o poder de ser controlado em uma determinada situação.

 

E é aí que as coisas complicam.

 

Existe um transtorno de comportamento individual, que chama “Sindrome do Pequeno Poder”, que acaba sendo uma atitude de autoritarismo por parte de um indivíduo que, ao receber um poder, usa de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas periféricos que possa vir a ocasionar.

 

(Se você é novato, saiba que existem redes sociais próprias pra fetichistas e BDSMers interagirem, e grupos de whatsapp de BDSM, inúmeros, incontáveis e invisíveis. Dito isso, continuemos…)

 

No contexto BDSM, essa síndrome costuma se apresentar em situações bem comuns que as vezes passam desapercebidas.

 

Em algumas dessas redes, as pessoas escolhem seus papeis, e o então auto intitulado Dominador, ou Dom, ou Domme, etc., abordam a maioria das pessoas já as tratando como submissos. Ou ainda, exigindo daqueles que colocaram seu “papel” como submisso, que tratem todos os Dominantes como “Senhor”, “Senhora”, etc..

 

Dentro de um contexto, previamente combinado entre os praticantes da cena ou da sessão, eu acho ótimo essa hierarquia imposta pelos pronomes de tratamento, mas fora isso, acho complicado exigir de um estranho.

 

“É a MINHA fantasia, por que devo algo se você não está inserido na MINHA fantasia?”

 

Se o submisso, gosta desse jogo, de tratar os que se intitulam Dominantes por “Senhor”, Ok. É uma escolha do submisso, não é algo imposto.

Inclusive, quando se vê pessoalmente alguém agindo como superior, acima de estranhos, essa pessoa soa extremamente desagradável. Fica inclusive tosco, como aquela Domme que acredita tanto em superioridade feminina, que não respeita homens em geral, como pessoas, soando inclusive antipática.

 

Em uma relação, essa “Sindrome do Pequeno Poder” afeta as pessoas da seguinte forma, o Dominante, tão habituado com seu submisso, começa a negligencia-lo. O Submisso começa a se anular, e o até então “Dominante” começa a extrapolar. Com o tempo, sem pausas para autorreflexão, e mesmo períodos baunilha, há uma grande chance de se tornar uma relação abusiva. Em que o parceiro que “dominava” com maestria, se torna o algoz que oprime e torna a vida ruim.

 

Da mesma forma, o submisso pode desenvolver a “Sindrome do Pequeno Poder”, soa caricato, mas eventualmente pode acontecer. O submisso conquista certo poder, normalmente o submisso homem que “compra” esse poder, servindo como base financeira ao dominante. Nessa situação o submisso tem o “poder financeiro”, então fazendo uso desse poder, ele começa a regular o dominante e a guia-lo na direção que deseja, adestrando assim o seu dominante.

 

É interessante sempre observar pois essa situação de achar que tem um poder maior do que realmente tem normalmente vem acompanhada de alguns sintomas e o pior deles é baixo auto estima, então em vez da pessoa se melhorar e mudar aquilo que a incomoda, ou ainda procurar um tratamento psicológico, ela começa a ter a necessidade de humilhar e rebaixar o outro na tentativa de cessar esse sentimento de menos valia. Ele diminui o outro pra se sentir maior.

 

Junto dessa necessidade de se reafirmar, há também o autoritarismo, que seria a instauração de um poder à força. Que tenta subjugar o outro por meio de força e atitudes mais agressivas. Tudo isso é fruto de incompetência, falta de recursos para administrar conflitos e principalmente “iNgnorancia”.

 

Qualquer um que apresente “Sindrome do Pequeno Poder”, tende a se afastar ou mesmo atacar, não medindo ações contra quaisquer pessoas que sejam ameaça ao seu suposto poder. Tudo isso para fazer valer sua ilusória “autoridade”.

 

Mas tem cura! Rs

 

Há pessoas que precisam de um acompanhamento psicológico, há pessoas que conseguem se perceber e controlar o seu alter ego.

Se você é do tipo que adora se embriagar de poder, o que acho ser uma sensação deliciosa, você é do tipo que tem que aprender a conquistar esse poder.

 

 

O real poder de uma pessoa, nos dias atuais, se manifesta principalmente por conhecimento e como fazer uso desse conhecimento. Dependendo diretamente ética, e de como e com quem se compartilha esse conhecimento.

 

Conhecimento esse que está extremamente democratizado e disponível, hoje você consegue aprender quase qualquer coisa na internet.

 

E isso exige responsabilidade.

 

Com o conhecimento se ganha poder, você aprende como subverter alguém e colocar esta pessoa em um estado de subserviência, mas sem responsabilidade, você começa a observar somente seu lado e a defender os seus próprios interesses. Quando as pessoas estão envolvidas em relações e cada uma dessas pessoas, defende seus próprios interesses somente, sem parcimônia, instaura-se o caos.

 

É típico, o Dominador conquista poder, por um conhecimento pífio, por beleza, por dinheiro e conquista vários servos. Sem responsabilidade, cada uma dessas pessoas fica solta e começa a observar os próprios interesses. Dessa forma começa a haver competição entre os servos, e começam a se enxergar como concorrentes e rivais. O caos se instaura.

Sem a liderança do Dominante, todos ficam à deriva. E ainda sem essa liderança, corre cada um pra um canto rompendo assim qualquer vínculo que os mantinha unidos.

(Existem formas de se fazer relações com mais de duas pessoas, funcionarem para que todos tenham prazer, mas não é esse o foco do texto hoje).

 

Bom, o conselho que dou, mesmo se você é iniciante ou experiente, é que se observe. Tente observar suas atitudes, sua postura, e mesmo a forma como observa os outros.

 

Tenha responsabilidade e humildade para se reconhecer.

 

Quem sofre da Sindrome do Pequeno Poder no BDSM, normalmente passa mais tempo infeliz e insatisfeito, do que realizando seus fetiches e feliz.

 

Se você já viu, ou já passou por isso, me conte sua história 😉

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