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Parceiro Valoroso, Fetiche Trabalhoso

Ares 2

 

Quando se fala de “investimento em fetiche”, o que vem primeiro a sua mente?

Para algumas pessoas, investir em fetiche é comprar acessórios, muitos acessórios, quilos, toneladas de acessórios… Para outros tem a ver com criar cenas e investir no “onde” ocorrem as coisas. De qualquer forma, fetiche tem a ver com algo sobrenatural, mágico, erótico.

O investimento muitas vezes é calculado somente pelo dinheiro gasto, e não reflete muito bem o contexto. Sabia que muitas das pessoas que investem em fetiche não sabem nem que fazem isso?

 

Um dos recursos que temos para investir é tempo.

 

Imagina que você conheceu uma pessoa, você tem que investir tempo pra conhecer aquela pessoa, tempo para prover conversa agradável, tempo pra se arrumar para encontrá-la, tempo para passar juntos… e por aí vai. Esse tempo você nem vê passar quando a coisa toda é fluída.

Tempo é o que traz mais retorno quando se fala de fetiche.

Uma cena por exemplo, pode exigir muita preparação, escolher o lugar, escolher a pessoa certa (ou as pessoas certas), pensar no que cada um vai vestir, etc. Tudo isso é investimento, pois quanto mais detalhes se observa nesta preparação, maiores são as chances de se realizar. E é sobre isso que estamos todos tentando diariamente, realização.

Já tentou juntar um grupo como esse pra uma cena de bondage?
Já tentou juntar um grupo como esse pra uma cena de bondage?

Como sempre analiso o meio BDSM, as relações BDSM e baunilha que conheço. E acaba sendo tosca a constatação de que quanto mais se valoriza o parceiro, mais se investe em fetiche.

 

Conversando com um conhecido que tem uma distribuidora de produtos para sex shop, cheguei a comentar de que a maioria dos bdsmers costuma procurar produtos de melhor qualidade. A maioria reclama da dificuldade de encontrar coisas de qualidade no brasil, de ter que importar, impostos, preços elevados, moeda fraca, etc. A resposta dele foi bem interessante: “Mas esse não é meu público alvo, o meu público alvo é aquele que quer gastar pouco, e procura acessórios de baixo preço e consequente baixa qualidade.”

E os baunilhas em geral são assim, os baunilhas que mais investem em fetiches, costumam querer gastar muito pouco, justamente por se preocupar em realizar um fetiche uma única vez. Sabe as roupas de vinil dos sex shop? Elas são feitas para se usar 1 vez, no máximo 2. Então são vendidas principalmente para mulheres mais novas que querem usar para os namorados ou maridos, com um preço super acessível.

 

Já o látex, que é de melhor qualidade, mais durável e tem ainda mais apelo do fetiche e do erótico, costuma ter preços bem maiores e as pessoas compram pra si mesmas.

 

Ok, mas e o que isso tudo tem a ver com um parceiro de valor?

 

Muito. Pois quando um baunilha resolve arriscar um fetiche novo, ele tem 2 medos principais: o de se sentir ridículo para o parceiro, e o de não ser tão bom quanto ele esperava. E esses dois fatores estão principalmente relacionados a qualidade do parceiro.

 

Se é um parceiro de qualidade, alguém que esteja alinhado com você, que o tesão seja muito bom, a química muito boa, e vocês consigam conversar sobre seus fetiches, que tenham intimidade e cumplicidade, essa é uma receita pra coisa toda funcionar muito bem.

 

Se é um parceiro ruim, com quem não se tem muita intimidade, a química anda mais ou menos ou ainda vocês não tem uma boa conversa, a coisa toda acaba virando uma caixinha de surpresas. Um dos dois arrisca sem saber direito como vai ser e quando dá errado, normalmente o que arriscou fica magoado.

via GIPHY

(Essa bomba de Glitter pra fuder o dia fazendo bagunça! hahahahaha => https://www.ruindays.com/)

 

Enquanto BDSMer, as relações começam já com uma abertura um pouco maior relacionada aos fetiches. Isso por um lado é bom, acaba por eventualmente tornar a relação mais leve, é como se se assumir BDSMer já fosse uma “rebeldia” pré estabelecida, em que os dois assumem a “obrigação” de ser mais de boa com isso.

 

Na teoria funciona assim. Rs

 

Mas na prática o que tem acontecido é que as pessoas tem abraçado a ideologia BDSM de forma bem parcial.

 

Eu acredito que BDSM é um mosaico, você pega o que te interessa, assumindo que tem sempre prazeres, responsabilidades e consequências, e monta o seu painel com o que te interessa. Se você gosta de spanking, você assume o prazer de fazer/receber, a responsabilidade de ser prudente e evitar lugares perigosos, e assume as consequências de cuidar (o aftercare). Isso é aplicável a todas as práticas. Mas você não pode pegar, por exemplo, somente os prazeres e ignorar todo o resto, isso torna as relações insustentáveis.

 

Na prática, o que tem acontecido é que por certa ansiedade de viver essas experiências, por falta de preparo, ou mesmo por displicência, a maioria dos BDSMers atualmente tem se permitido se envolver em situações ou mesmo relações insatisfatórias. O outro não é necessariamente o que vc queria, ou mesmo precisava, mas você segue com ele, afinal ele está disponível, bem ou mal está ali.

 

E como você sabe que acaba sendo um parceiro “quebra galho”, você entra naquela direção de: pouca intimidade, química mais ou menos, conversas mais ou menos, relação caixinha de surpresas e o risco de mágoa.

 

O primordial é o parceiro, a partir daí você cria cenas, compra acessórios e faz a coisa toda acontecer.

 

Com toda essa situação “mais ou menos”, acabamos nos perdendo do que deveria ser mais importante nossa própria realização.

 

E aí vem uma forma de avaliar sua relação.

 

Quanto do seu recurso (tempo, dinheiro, pessoas, fetiches, etc.), você investe na sua relação? Por que não investe mais?

 

Pensar nisso pode te ajudar a sair de uma situação ruim, ou mesmo entender que o seu parceiro é alguém de valor e que precisa que você invista mais nele.

 

  1. Luabh Luabh

    Belo texto!!! Concordo com tudo o que definiu como “investimentos “. E só dando uma opinião é que se não existe estes investimentos o que se tem são sessões e não relações BDSM.

    • Ares Ares

      Olá Lua,

      Mesmo as sessões ainda requerem preparação.

      Essa coisa de “rapidinha”, não funciona muito bem pra BDSM.

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