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Síndrome da Pedra Preciosa

Ares 0

 

Observei que os bdsmers mais experientes com mais de 10 anos de “carreira” são de uma geração que zelava pelo esforço, mais do que pela facilidade de se conhecer alguém.

É interessante observar como as coisas mudam ao longo do tempo.

Eram tão poucos ditos BDSMers que quando se conhecia alguém, a preocupação não era muito em descobrir se é um dominante de verdade, e sim se a química funcionaria para uma possível relação. Era mais difícil conhecer pessoas, mesmo já havendo internet, a quantidade de informação era pouca, o meio era pequeno e todo mundo se conhecia.

Quando acontecia algo ruim, ou algo as vezes fora do normal proposital ou não, todo mundo ficava sabendo, era um clima de cidade de interior e que havia mais tranquilidade.

Estes mesmos BDSMers mais antigos tem passado por dificuldades hoje em dia.

 

Essa Síndrome se apresenta tanto para o submisso quanto para o Dominante, normalmente pela interação com a outra parte.

 

Do lado submisso, os submissos costumam reclamar da ausência de decisão e de “tomar posse” dos dominantes que conhecem. O submisso dá a deixa, se coloca à disposição e mesmo assim o Dominante é meio letárgico, como um bicho preguiça lento em suas ações. Os submissos insistem, tentam conversar, procuram as vezes assuntos, imagens, memes, coisas que viram e lembraram de seu Dominante e tentam fazer a vida desse Dominante melhor.

Da mesma forma, há submissos que prestam serviços, dão presentes e se dedicam de formas a agregar valor à vida do Dominante.

Enfim, eles tentam se entregar.

E os submissos esperam algo em troca, normalmente ser reconhecidos como valorosos submissos, as vezes outra coisa.

Como consequência de todo esse esforço inicial por parte do submisso o Dominante se acostuma a ter toda essa atenção. Há uma proporção absurda de submissos por Dominante e isso faz com que esse mesmo Dominante que poderia ser um ótimo Dominante sofra da Síndrome da Pedra Preciosa.

É mais fácil ao Dominante se negar ao esforço de um submisso que vale a pena, e esperar o próximo submisso que vai se esforçar um pouco e não vai valer a pena. É comum trocar sem se dedicar a relação, porque há outro na fila. Nessa ausência de reconhecimento, de sensação de pertencimento, o submisso perde o “tesão”, e a relação termina.

A síndrome da pedra preciosa afeta o Dominante pois o Dominante se sente uma pedra preciosa. Neste caso o submisso é o garimpeiro, que passa a vida procurando “A PEDRA PRECIOSA” e quando encontra se enche de abastança para o resto da vida. Para o “dominante pedra preciosa” o esforço tem que ser todo do submisso, sendo do submisso o esforço de encontra-Lo e de servi-Lo, restando ao dominante o papel de esperar.

Sabe aquele diamante que você vê e que te dizem ter um valor exorbitante? Se ele não te serve pra nada, é só uma pedrinha bonitinha ou moeda de troca.

 

Há sim diamantes de todos os valores, mas normalmente esse valor é medido pelo outro, o diamante não te diz quanto ele vale, e sim alguém especialista em joias.

 

(Diamantes Industriais, tem baixo valor comparado com jóias, mas são excepcionais em utilidade pra industria.)

 

Por sentar e esperar, o dominante perde a sua maior qualidade, o seu maior poder, o de “fazer as coisas acontecerem” e por isso perde valor. Pro submisso de nada adianta um dominante que não faz acontecer, que não toma as rédeas da relação e verte o universo a seu favor.

Esse “dominante pedra preciosa” tem valor pra um museu, pra fotos, as vezes até pra um desfile, normalmente tende a ser algo mais estético, como uma arte morta e por isso se torna péssimo de se relacionar.

 

Do lado Dominante, os BDSMers se relacionam com submissos que procuram alguém que realize suas fantasias, e muitas vezes esses submissos são pouco interessantes. O Dominante quando procura um submisso, normalmente escolhe por aquele que vai desafia-lo, que vai ajuda-lo a ser melhor, mesmo que isso as vezes signifique desobedecer. E não alguém que quer usa-lo para se realizar.

Já ouviu o discurso de submissos atualmente?

“Eu procuro alguém para realizar as MINHAS fantasias”.

Lógico que eventualmente alguns submissos tem mais cultura e falam isso de uma forma mais elaborada, passando até a impressão de que eles querem outras coisas que não o próprio prazer.

Chega a ser tão bizarro a ponto de a pessoa te adicionar, conversar com você as vezes menos de 1 hora e quando essa pessoa percebe que a coisa demoraria ou ainda não aconteceria, ele te deleta, bloqueia. É bem utilitário “se você não faz o que eu quero, você não serve pra mim”.

Há também alguns submissos que procuram alguém que os diga como viver suas vidas, e não conseguem conversar justamente por sempre esperarem uma atitude extremamente ativa de seu dominante. Eles normalmente não sabem o que tem valor para o outro, muito menos reconhecem seu próprio valor e, portanto, não sabem o que e quando oferecer, ao outro. É meio complicado inclusive de se relacionar com pessoas assim.

De qualquer forma, o “submisso pedra preciosa” se coloca sempre como uma pedra preciosa não lapidada. “Eu posso oferecer tudo o que o Dominante quiser, desde que ele tenha paciência de me lapidar”, e essa “paciência” nunca vem.

Imagine uma pessoa normal, com uma vida pra viver. Imagine que essa pessoa é alguém que escolheu ser Dominante no BDSM, ele nunca vai conseguir viver a própria vida, e esperar anos enquanto deixa a outra pessoa do jeito que ele quer.

O submisso tem que se adequar a situação atual do dominante, ou não. Mas nunca pode deixar nas mãos do Dominante a responsabilidade que é dele. Dizer que o Dominante deve lapida-lo é dizer que a responsabilidade do submisso ser feliz é única e exclusivamente do Dominante. Enquanto que o submisso se isenta de qualquer responsabilidade.

Normalmente o Dominante sabe quando um submisso se adequa ou não, e é responsabilidade dele dizer: “eu posso e quero dessa forma, está bom para você? ”, mas é também escolha do submisso permanecer ou não na situação apresentada, seja ela boa ou ruim. As vezes o Dominante não sabe ou não fala, e então o submisso tem que ter outra escolha.

 

(Nunca desista. Você só tem uma vida, faça valer a pena.)

 

De todas as formas, seja para dominantes ou submissos, a regra do jogo é bem clara, bem como a vida, se você quer algo vá e faça acontecer, assuma a responsabilidade e entenda até onde você pode e quer ir.

Ninguém vai “ter trabalho” por você, se o outro não ver valor, seja você a pedra preciosa a ser garimpada ou a pedra preciosa a ser lapidada. O seu valor está nos olhos do outro, mas sua autoestima define quem esse outro é e até onde você vai.

Pare de perder tempo com o que não te faz feliz.

Encontrou algo que tenha valor, reconheça isso e entenda o que você faria por esse valor. GO FOR IT!

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