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Dominantes como meros coadjuvantes

Ares 0

 

**Atenção**

Eu fiz este texto como uma reflexão mais pesada, portanto é pra incomodar.

 

Bom, eu tenho alguns amigos submissos, homens, mulheres, trans e etc. E eu sou Switcher (aquele tipo que se flexiona como Dominante ou submisso, tem um post meu aí pra trás que fala de Switcher).

 

Observando a dinâmicas das relações de Dominação e submissão atuais percebi algumas coisas interessantes. E infelizmente estas coisas interessantes não são lá muito positivas.

 

O BDSM virou mainstream com 50 tons de cinza. Foi bom, trouxe novatos, curiosos e muitas pessoas interessantes. Eu encaro mesmo o 50 tons de cinza como aquele start pra mostrar que o BDSM existe, o que veio a partir daí é que foi problema.

Para mim, BDSM é autoconhecimento, autodescoberta, vc encontra o que te dá prazer e aprende aquilo, na teoria é bem simples, mas na prática a coisa complica um pouco.

Funciona assim:

– Você descobre que gosta de spanking.

– Aí você lê sobre spanking.

– Lê sobre spanking até chegar em um nível que acha satisfatório, ou pelo menos te dê coragem para dar um primeiro passo.

– Olha pro seu parceiro atual e pensa em como ter essa experiência.

– Escolhe um jeito de abordar, sutil e tenta.

– Se não deu certo com o seu parceiro, você procura outro parceiro.

– Escolhe um jeito de abordar, sutil e tenta.

E repete até conseguir.

Simples? Pra spanking sim, mas uma prática isolada não é BDSM…

 

O BDSM exige uma relação, ou mesmo uma situação em que haja um dominante e um submisso pelo menos. E mais do que isso, o BDSM exige entrega do submisso ao dominante. Só que o submisso só se entrega para quem acha que merece, e aí é que a coisa complica.

O que vejo hoje em dia é mais ou menos isso: o homem correndo atrás da mulher.

É um instinto básico do ser humano, o homem é o caçador, e a mulher é a caça.

E não há feminismo que mude isso. Pelo menos não no meio BDSM do dia a dia.

 

Comumente os submissos abordam inúmeras Dommes no dia a dia. As Dommes se acomodaram e se acostumaram a isso. É fácil de provar, crie um perfil BDSM feminino, independente do seu papel, vários homens vão te abordar, independente do papel deles.

“Ah, mas eu me sinto valorizada tendo todos esses homens, capachos e trouxas disponíveis a me servir”.

Mas será que é isso mesmo?

Normalmente um homem busca um parceiro (a) para atender necessidades fisiológicas e instintivas, ele quer gozar. Alguns ainda querem ser comidos, inversão.

Os “dominadores”, já buscam de forma mais direta um pouco, alguém que os satisfaça, eles procuram uma “submissa”, mas não querem uma SUBMISSA, querem apenas gozar, e alguns ainda querem ser comidos, inversão.

Se alguém quer te usar para o seu próprio prazer, você só tem valor enquanto puder manter esta promessa de prazer.

 

A coisa está tão avacalhada, que as pessoas não entendem bem o papel do Dominante, e é bem simples. O Dominante, domina!

 

Basicamente, o Dominante é aquela pessoa que tem necessidade de realizar suas fantasias, normalmente infligindo práticas e normas sobre outras. O Dominante USA o outro em seu próprio prazer levando o outro a querer aquilo que ele quer, não importa o que seja.

Sério… não importa mesmo o que seja…

Seja forçando o submisso dar a ele orgasmos, seja forçando o submisso a aguentar dor, seja forçando o submisso a dar a ele dinheiro ou bens materiais.

Em via de regra, um dominante que sabe o que faz, consegue tudo de seu submisso.

 

“Nossa… Eu quero ser assim… Quero ser foda e ter pessoas rastejando por mim, fazendo o que eu mandar sem pestanejar”.

 

Ok, mas você está preparado?

 

Às vezes é meio chato, normalmente é trabalhoso, e sempre requer responsabilidade.

Chato porque necessita de se fazer ajustes sempre, é nos detalhes que você faz com que um submisso realmente seja seu.

É trabalhoso porque necessita encontrar alguém compatível com o que você quer, e necessita que você esteja alerta sempre, pra si mesmo e pro submisso.

Responsabilidade, porque já dizia o Tio Ben: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. É comum, infelizmente, os “dominantes” mandar submissos fazerem algo que não é bom pra eles, e o submisso faz, se frustra, ou se machuca, e isso quebra a confiança, cumplicidade, etc.

 

É meio complicado isso tudo, até porque você tem que delimitar claramente para si, até onde você vai e em que áreas da vida do submisso ele pode te ter para conversar e aconselhar, mas terá que tomar as próprias decisões.

Você NUNCA deve tomar todas as decisões. Uma pessoa dependente de você pra se decidir, é receita pra infelicidade dos dois. Porque tomar TODAS as decisões cansa.

 

Digamos que mesmo assim você ainda quer dominar.

Dominar é envolver o submisso tão fundo nas próprias fantasias, que para ele, vai parecer que ele não tem escolha a não ser te servir. Que se ele não fizer como você quer, ele vai perder a maior e melhor oportunidade DA VIDA dele de ser feliz. E aí conduzi-lo a realizar todas as suas fantasias.

 

E ele vai ser feliz assim. Garantia total ou seu dinheiro de volta.

 

Para envolver o submisso nas próprias fantasias, o que você tem que fazer é: ser ativo e perverso.

Vou citar um exemplo de uma Domme amiga minha.

Ela era uma pessoa que se conhecia muito bem, sabia do que gostava e não tinha medo de suas perversões. Ela realmente morria de tesão em feminização e inversão, e nunca fez isso porque somente o submisso queria.

Funcionava assim:

Ela estava presente em algumas redes sociais, em chats convencionais e sempre aberta a falar besteira, até mesmo escutar caso algum amigo ou conhecido falasse de bdsm, inversão, feminização ou qualquer coisa próxima. Ela escolhia quem ela queria e como ela queria. O perfil normalmente era de homens com aparência máscula e que mesmo curtindo feminização não fossem afeminados. Gostava muito de conversar e eventualmente enviava vídeos e fotos que ela encontrava enquanto consumia pornografia, para ver a reação do submisso e também entender o que ele procurava. Quando encontrava algo próximo ao que queria, ela direcionava o submisso para poder dar prazer a ela. Normalmente com tarefas e até coisas simples, mas pervertidas, que se entranhavam no dia do submisso e tomavam parte de sua concentração.

– “Todos os dias você vai cumprir uma tarefa pra mim, quero uma foto, tal horário todos os dias, fazendo tal coisa.”

Desta forma ela já deixava claro que a submissão era diária, não esporádica.

– “Não, hoje você não vai usar plug, só quando eu quiser”

Ela deixava claro que as coisas aconteciam quando ela queria, mesmo que ela quisesse que o submisso usasse o plug, pq quer comer ele muito, ela o fazia usar em outra hora sob outra circunstância, definida por ela.

– “Todas as segundas feiras você vai usar plug e calcinha rosa, por quanto tempo acha que consegue usar os dois durante o dia?”

Ela coloca uma obrigação ao submisso, que normalmente não é discutida, e o submisso foca somente em como obedecer. Ele dá o prazo e se torna refém daquilo. Ela pede foto com o plug no horário determinado e sem plug no horário determinado. As vezes faz usar mais calcinha naquele dia, só para mostrar que ela pode mudar as regras. E a frequência semanal, dá uma sensação inconsciente de que a relação vai durar.

 

– “Eu quero uma submissA bem putinha, que gosta muito de dar. Mas quero saber, você se vê mais como uma putinha ou com uma moça de família mais tranquila?”

O submissO, nem percebeu, mas aqui ela tirou a escolha dele de não ser a fêmea da relação, só fez com que ele ficasse com vontade de ser a submissA putinha.

 

– “Não quero você se masturbando sem a minha permissão. Eu sempre sonhei com uma submissA que ficasse com o grelinho trançadinho em um cinto de castidade, poderia brincar muito com ela, e ela ia gozar muito comigo quando e como eu deixasse. Mas se você assumir o compromisso de não se masturbar, acho que fica bom também, o que acha?”

O submisso fica com aquilo na cabeça, se é iniciante, normalmente aceita o compromisso de não se masturbar, mas fica com a ideia do cinto de castidade na cabeça. Ele é submisso, ele quer ser dominado, e a promessa de só gozar com sua Dona, é muito tentadora, pois ele acha que vai ter mais prazer, e mais encontros com ela dessa forma.

 

Ela não tinha ideia de que tem técnica pra tudo isso, muito menos que tem nome e que inclui psicologia e marketing, mas instintivamente ela fazia e funcionava.

 

Tem muitas outras coisas que já vi ela fazendo, bem como outros Dominantes homens e mulheres.

 

Deu pra ter umas ideias, aposto!?

 

Mas o principal aqui é: O Dominante escolhe o seu submisso. Pavimenta o caminho de seu submisso. Ele é ativo, ele dá tarefas que o conduzam para o que ele quer. E ele sabe manter distância também, para ver o submisso sentir falta. As vezes até a ausência de tarefas, mas sessões ótimas podem ser uma boa estratégia.

 

A única regra, é que o Dominante tem que ser ativo, se ele apenas reagir aos pedidos do submisso, rapidamente o submisso se cansa.

 

E se você é Dominante e quer ter o submisso dos sonhos, vá atrás dele. Ofereça boa conversa, ofereça perversão, conte histórias que possam seduzi-lo, compartilhe pornografia, e plante uma promessa factível.

 

Adendo

“Encontrar alguém compatível” é parte chave, não se faz farinha de pão triturando pedra.

 

Se você gosta de spanking, precisa de alguém que pelo menos tenha curiosidade. E mesmo que você ache aquela pessoa de corpo maravilhoso, que te dê um tesão visual enorme, cuidado para não se deixar seduzir demais, é você que manda, portanto não prometa demais, não se sujeite a coisas que não te fazem bem e esteja ciente do que quer.

Já aconteceu comigo. Uma submissa com quem conversava e que eu tinha muito interesse, em algum momento, me disse: “Eu quero um Dono, não quero me encontrar pessoalmente sem pelo menos uma coleira de avaliação”. Eu não dei coleira, para mim não funciona assim. Ela encontrou alguém que deu coleira antes de se encontrar pessoalmente. Ela teve uma sessão com essa pessoa, e 1 mês depois voltou dizendo que até hoje não se sentiu realmente dominada.

E uma outra vez eu disse: “Eu procuro uma boa conversa, e uma coisa mais leve, uma sessão apenas e se for bom uma segunda”. É bem realista, bem sincero, e bem leve. É sempre assim, se for bom continua, se não for pára. Com qualquer pessoa que se conhece rs. Ela disse que não, que queria algo sério. Eu disse “ok”. E algum tempo depois ela volta dizendo que perdeu tempo, enquanto ela se guardava para a pessoa certa, para ter algo sério, ela deixou de conhecer pessoas interessantes e de quem sabe estar em um relacionamento como o que ela queria.

 

Se você souber exatamente o que quer e pra onde vai, toda pedra no caminho se torna uma pedra a mais no seu castelo.

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